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  • Onair Nunes

DOLOROSAMENTE REAL


O Brasil vive o estado do não quero ser, mas me querem sendo. Querem colocá-lo no Leito de Procusto e o estão retalhando para que nele caiba, esquisitamente atribuindo a uma função da Economia o caráter da própria Economia. Alterar ou perturbar o que é natural, usando­-se o que tem função específica para finalidade diversa gera desvios, não soluções; e quanto mais se tenta­ explicar o antinatural, o anormal, portanto, maior a incerteza. A Economia tem suas próprias regras e mecanismos, instabiliza­se quando perturbada.

Há 4 (quatro) anos começaram a perturbar a Economia do Brasil, há 3 (três) anos as perturbações entraram na fase operativa e há ano e meio querem­-na no Leito de Procusto. É o erro “do tipo certo”, praticado, não cometido, com finalidade pré­-determinada. Do jeito que as coisas estão indo, a não se modificarem, daqui a pouco, quando quisermos defender nossa liberdade de expressão, teremos de invocar a Primeira Emenda, não o Artigo Quinto da Constituição da República, o nexo causal em viagens ao exterior, na volta das quais atitudes incompatíveis com certas funções começaram a ser observadas. Imaginem o que aconteceria se o Vice­Presidente dos Estados Unidos entregasse em mãos ao Sr. Trump uma carta adrede e previamente divulgada reclamando mais protagonismo! Também pode não ser. Quem está certo de tudo, não tem dúvidas, é um pateta programado, não um ser pensante; não expor­-se ao imponderável ou às probabilidades congela a inteligência, substituída por um programa, um aplicativo.

O Brasil de hoje é um país lúdico, uma grande brincadeira, as pessoas do topo estão sempre sorridentes. 52 (cinquenta e dois) milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza? Ora bolas!, não seja criador de casos! Vivamos desfilativos e gesticulantes, procedamos como se vivêssemos no melhor dos mundos, esbanjemos desafios como se contássemos com o apoio integral da Sociedade. Não se espante com as expressões desfilativas e gesticulantes, para ser lúdico é preciso inventar, cultivar e difundir histórias da carochinha, fazer do quadrado, redondo, convencer quem não gosta de brincar com coisas sérias que as coisas sérias, seus princípios, não são aqueles de sua história de vida, não são mais aqueles que sempre foram, mas aqueles assim apontados pelos nossos brincalhões. O blog está achando que tudo a acontecer não passa de uma grande entubação. E, de modos diversos, não apenas o

blog.

Nassim Nicholas Taleb, um ex­-empresário e operador da Bolsa de Valores, utilizou o termo iatrogenia — in Antifrágil­-Coisas Que Se Beneficiam Com o Caos, BestBusiness, Rio de Janeiro, 2017, Tradução de Eduardo Rieche, página 538 — para definir o dano causado pela medicina informal, por exemplo, quando as intervenções do médico provocam mais mal do que bem, denominando iatrogenia generalizada, por extensão, os efeitos colaterais danosos das ações dos formuladores de políticas públicas e da atividade acadêmica. Merece destaque o que chamou de Classe Angustiada, uma categoria de cidadãos de condições econômicas estáveis que desejam mais riqueza. Para ele, a classe média tende para essa classe, assim como os lobistas, a maioria dos banqueiros e os burocratas, entre outros, todos subornáveis desde que utilizado o argumento certo, em especial se casuístico. Chamou de a violação de Robert Rubin, ou roubo de opcionalidade, a obtenção de vantagens sem qualquer desvantagem pessoal, deixando os danos para a sociedade. O agente do seu exemplo, segundo ele, recebeu 120 milhões de dólares em indenizações do Citibank, ficando por conta dos contribuintes o pagamento retroativo dos erros cometidos por Rubin (Taleb, op. cit., página 541). Vale a pena ler na íntegra essas referências, como de resto todo o livro.

Relativamente aos esforços para acomodar o Brasil no Leito de Procusto, o Presidente argentino, visivelmente constrangido, foi usado como bisturi, ou machadinha. A gente ficou meio sem graça, sentindo­-se ridícula. Eles são eles, nós somos nós, cada qual com a sua história. Respeitemo­-nos.

Agências de Risco estão para baixar a Classificação do Brasil, elas não se adaptam às coisas lúdicas, estão habituadas à Economia real, aquela que não adianta torcer e que, de tanto torcer, acaba rompendo, explode. E sabem os meus caros amigos nas inocentes faces de quem? Na sua, na minha, de todos nós, menos nas enganadoras faces dos Roberts Rubins desta nossa fração de mundo ao sul do Equador.

O blog definiu a sua frase do ano: Tem que manter isso, viu? Quando foi dita e gravada nada tinha de lúdico, de história da carochinha; ao contrário, é uma história muito triste, dolorosamente real. Que precisa acabar. Como têm acabado todas as histórias do mesmo gênero na expêriência recente do Brasil.

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CARRINHO