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  • Onair Nunes

UM POUCO DE HISTÓRIA


Bento Gonçalves não foi um guerreiro gaúcho, foi um guerreiro nacional, não foi apenas um herói sul-rio-grandense, foi um herói brasileiro. Não fora ele, possivelmente não teríamos um Estado do Rio Grande do Sul, mas, em seu lugar, um outro país vizinho outrora província de uma possessão sul-americana do império português.

Sou brasileiro, nasci cidadão do império e assim hei de viver enquanto houver liberdade em meu país, porque para mim a liberdade não é uma burla para enganar o povo, mas o primeiro bem, que não se perde sem desonra e não se tira sem traição (Bento Gonçalves)

O coronel Bento Gonçalves da Silva, veterano da guerra da Cisplatina e comandante da fronteira de Jaguarão e Bagé, era então o homem mais respeitado em toda a campanha do Rio Grande do Sul. Franco e generoso, bravo como as armas, vazado na mesma têmpera de Osório e Andrade Neves, montando a cavalo como o Cid campeador, Bento Gonçalves era o ídolo da campanha.

Os homens o adoravam; as mulheres o admiravam. O mais sacudido rapaz achava coisa muito natural que as moças bonitas chegassem à janela para ver passar o elegante velho, com seu talhe alto e espigado e seu peito amplo e estufado como o peitoral do brioso ginete.

Sensível a essa fineza do belo sexo, o veterano alisava o bigode grisalho, pagando com um sorriso os olhares coados pelas grades de madeira das janelas. Ao mesmo tempo consolava os rapazes, fazendo-lhes um aceno com a mão ou dirigindo-lhes algum dito picaresco.

Da influência que exercia Bento Gonçalves sobre o ânimo da população, pode bem dar uma ideia o que dizia há pouco um dos camaradas reunidos no alpendre da pousada: “Se ele não quisesse, quem o obrigava?” Estas palavras traduziam a convicção daquela gente. Para os habitantes do interior, o coronel era o rei da campanha; ninguém tinha o direito de lhe dar ordens. Desarmara Juan Lavalleja porque assim lhe aprouvera, como poderia protegê-lo, unir-se a ele, e marchar sobre Frutuoso Rivera.

Havia então no Rio Grande do Sul outros coronéis, e entre eles o veterano Bento Ribeiro, que devia figurar posteriormente na história de sua província de uma maneira tão triste, apagando as páginas brilhantes que sua espada leal tinha escrito em mais de um campo de batalha.

Mas o coronel por excelência, aquele em quem o povo havia personificado o título, como o mais bravo e digno, era Bento Gonçalves. De uma à outra fronteira da província, os estancieiros muitas vezes não sabiam ou não se lembravam quem era o presidente e o comandante das armas, mas qualquer peão, ouvindo falar no coronel, sabia de quem se tratava; e não se metessem a falar mal dele, que a faca de ponta saltava logo da bainha.

A conversa continuava entre os fregueses da venda:

— Cá por mim, se eu fosse o coronel, o que fazia era passar uma coleira vermelha ao pescoço do Lavalleja.

Estas palavras eram de um carneador. Coleira chamava ele no seu estilo pitoresco à degola que todas as manhãs fazia das reses destinadas ao corte da charqueada.

— Ora, que mal fez o homem? —Já se esqueceu do levante de Montevidéu?

— Não vejo crime em um homem libertar sua pátria, acudiu o Lucas Fernandes. Fez ele

muito bem e nós cá não estamos muito longe de seguir o mesmo caminho. As coisas vão mal;

o governo do Rio não dá importância aos homens da província. Já não demitiram o coronel porque têm medo.

— Lá isso é verdade! Atrevam-se que hão de ver o bonito.

— Não é por falta de vontade dos de Montevidéu que não cessam de pedir.

— Pudera! Se não fosse o coronel, entravam eles por esta fronteira como por sua casa.

Eram os sinais da revolução que devia prorromper três anos depois. A semente aí estava lançada na população e se desenvolvia com o vento sedicioso que soprava do Prata.

(...)

Estavam à porta o cabo de ordens e uma récua de camaradas paisanos ao serviço do coronel. Não havia então na campanha do sul homem ou estancieiro importante que não se acompanhasse de um bando de gaúchos. O número desses camaradas, que lembram os acostados da Idade Média, indicava o grau de preponderância e riqueza do patrão.

Voltara Bento Gonçalves do quartel, e enquanto serviam a ceia, foi ter na sala com seu prisioneiro, D. Juan Lavalleja.

O caudilho dava sinais bem visíveis de mau-humor, no cenho e na impaciência com que trincava a ponta do cigarro de palha. Por momentos arrependia-se do que tinha feito, e lamentava não ter morrido combatendo contra Frutuoso Rivera ou Bento Gonçalves, antes do que sujeitar-se à humilhação de render as armas. E a quem? A brasileiros.

Não obstante, no meio desta apoquentação, lá surdia no ânimo do ambicioso caudilho uma ideia, que ele ruminava com a mesma pertinácia do dente a morder a palha do cigarro.

Com a entrada de Bento Gonçalves, a sofreguidão de Lavalleja aumentou. Correspondendo apenas com um gesto seco à saudação (...), ergueu-se e começou a percorrer a varanda de uma a outra ponta, em passo de carga. Pelo que lembrou-se o coronel de assobiar o toque de avançar a marche e marche.

Ou porque o gracejo (...) o excitasse, ou porque era chegado o momento da explosão, Lavalleja veio como um foguete até o coronel, exclamando com voz taurina e socando o ar com um murro furioso:

— Coronel, o senhor não é um homem!

Aquelas palavras abalaram Bento Gonçalves, que, de repente, achou-se em pé afrontando face a face o oriental. Mas não passou de um primeiro assomo; a alta estatura que a indignação erguera perdeu a rijeza ameaçadora. No rosto anuviado perpassou o sorriso plácido e sereno das grandes almas, que uma cólera pequena não conturba. São essas almas como o grande oceano; qualquer borrasca não o agita. Para subvertê-lo é preciso o tufão dos Andes.

— O senhor é meu prisioneiro e hóspede desta casa, general, disse Bento Gonçalves sentando-se com a maior calma. Em outro momento e outro lugar, eu lhe mostraria que um brasileiro não vale um, mas dez homens; enquanto que são precisos dois castelhanos para fazer meio brasileiro. O senhor deve saber disto.

— Outro tanto lhe podia eu retorquir; mas não estou agora para bravatas. Digo e repito que não é um homem, Sr. Bento Gonçalves, pois se o fosse, seria o primeiro de todo este Rio Grande. Em vez de coronel se faria general. Que vale o comando desta fronteira para quem pode,

estendendo a mão, apanhar a presidência da província?

— Que pretende dizer com isto, general?

— Caramba! No momento em que Bento Gonçalves quiser, o Rio Grande do Sul será um Estado independente como a Banda Oriental. Está bem claro agora? Para arrancar minha pátria ao jugo do império bastaram trinta e três heróis; bem sei que um deles era D. Juan Lavalleja. O senhor que tem por si toda a campanha, deixa-se aqui ficar bem repousado, a chupitar seu mate como uma velha; e pica-se porque lhe digo que não é um homem. Mas decerto que não o é. Minha mulher, D. Ana Monteroso, teria vergonha de praticar semelhante fraqueza; ainda que é mulher de quem é, todavia...

— De que lhe serviu ao senhor, diga-me, fazer a divisão da Cisplatina? Retorquiu o coronel com ironia. Lá está seu compadre, dentro do queijo; e eu obrigado bem contra minha vontade a desarmar o herói da independência de sua pátria, como um rebelde.

— Lá isso não vem ao caso; é a sorte da guerra. Hoje ganhou meu compadre a partida, amanhã chegará a minha vez; todavia, cá entre nós, quem manda é o mais forte; não somos governados por um menino de sete anos.

— Quem governa é a lei, respondeu Bento Gonçalves em tom seco.

— Burla, coronel; este mundo é governado por duas coisas: a força ou a astúcia. O mais, isso de lei, de liberdade e justiça, são palavras sonoras para o povo, que no fim de contas não passa de um menino a quem se acalenta com um chocalho. O Rio Grande lhe pertence, coronel, como a Banda Oriental a mim, D. Juan Lavalleja. —Vamos cear, general. —Então deixa passar a ocasião? —Sou brasileiro, nasci cidadão do império e assim hei de viver enquanto houver liberdade em meu país, porque para mim a liberdade não é uma burla para enganar o povo, mas o primeiro bem, que não se perde sem desonra e não se tira sem traição. Quando eu me convencer que para ser livre é preciso deixar de ser monarquista, não careço que ninguém me lembre o que me cabe fazer. O coronel Bento Gonçalves saberá cumprir seu dever.

Dando esta resposta com tom enérgico, o rio-grandense guiou o caudilho à varanda onde tinham posto a ceia.

TRECHO DE TEXTO QUE ESTOU ORGANIZANDO PARA PUBLICAÇÃO

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CARRINHO