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  • Onair Nunes

O HOMEM SUPERIOR


Em algum lugar dos meus textos eu escrevi que a liberdade é da essência do ser humano, que ele precisa ser livre para ser feliz. A liberdade começa com o inafastável direito à vida, retroagido ao momento, mesmo, da concepção. A Declaração Universal dos Direitos do Homem o consagra, o diz essencial, exclusivo, inerente ao ser concebido em inteligência, tão direito quanto obrigação, que nem ao titular do direito assiste elimina-la de si. A vida não é sagrada, é natural, característica do melhor direito.

O ser humano existe per se na expressão trina da inteligência, do sentimento e da vontade que distingue o ‘eu’ exclusivo não derivado de qualquer outro fundamento que não a organização milagrosa da célula-mãe em sua complexidade e precisão. Cada uma de tais peculiaridades concorre para formar o liame particular do homem com a sua consciência, o atributo humano por excelência que ilumina o intelecto, traço forte da personalidade que se une ao sentimento para constituir a vontade.

A vontade é, pois, o móvel da liberdade do ser pensante naturalmente assentado nos limites da lei, que não pode ser conspurcada por meras inclinações de ordem política ou simples intolerâncias religiosas. A liberdade do ser humano acomoda-se nos lindes do direito natural, embasamento primeiro do direito positivo.

A personalidade é a propriedade emblemática determinante da essência ou natureza do ser humano, enquanto a consciência, marco inicial da espiritualidade, converte-se em juiz dos seus atos, independentemente da existência de regras ou normas, a partir dos princípios que lastream a ideia de infinito, do absoluto, do ser em sua dimensão maior, da verdade, do bem, do belo, do justo, laivos de espírito que não se desenham a partir de emoções ou sensações, quer pela reflexão, quer por abstrações, mas como decorrência da faculdade superior da razão, unificadora, a relação universal entre todos os seres que deduz a ideia da verdade, do bem e do justo pelas quais se guia o espírito que distingue o homem em sua inteligência, sentimentos e vontade para coroar e definir o homem superior, formado por dois elementos, o princípio divino, projeção do bem em escala infinita e absoluta, e o elemento individual, pelo qual o espírito se desdobra na ordem finita e condicional das coisas, unindo-se estes dois elementos para constituir a personalidade.

Deriva desse homem superior a mais bela e completa forma de vida em Sociedade, a democracia, modelo que antecipa a consciência à regra escrita, à norma, rigoroso juiz do homem social que, de seu turno, em contrapartida, repele o arbítrio, a imposição de critérios pessoais e de grupos, criatura natural do governo pelo consenso na verdade que se tem de multiplicar às instâncias e raias do infinito até alçar a vida ao estalão que transcende o rés das misérias morais para galgar-se à excelência, expressão do ser verdadeiramente humano, assim tornado após deixar pelos caminhos de sua longa jornada as contradições de sua dúplice constituição inicial, um esboço de inteligência e razão quase todo o tempo violentado pela fera e corrompido pelo réptil.

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