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  • Onair Nunes

A Flor e o Raio de Sol


A FLOR E O RAIO DE SOL

Após 2 dias de chuvas torrenciais, a manhã surgiu em luminosa explosão no vale exuberante de vida e beleza. Lírios, azaleias agrestes e delicadas margaridas brancas margeavam os estreitos e sinuosos córregos de águas muito claras que bordavam o vale estendido entre as montanhas, de permeio a uma multidão de moitas de capim muito verde carregadas de pendões dourados prenhes de sementes. O ar, agradavelmente seco e limpo, acentuava o brilho do sol projetado em raios oblíquos desde o nascer do dia, agora algo adiantado, mas longe, ainda, de sua metade, um meio de manhã tépido e glorioso, de celebração da vida.

— Bom dia, flor, como você se chama? — Ai, raio de sol, que susto! — Desculpe, não quis sobressalta-la. Encantei-me com sua expressão perdida, com a sua brancura e pureza. Estou verdadeiramente cativado. Você me perdoa? — Claro, raio de sol. Estou muito feliz por você haver chegado. Estava sentindo uma saudade gostosa e incerta, a rigor uma carinhosa e intuitiva impaciência pela sua vinda. — Você não me disse o seu nome... — Margarida. — Margarida! É um nome bonito, mas não faz justiça à sua beleza, à alva delicadeza de suas pétalas, à alegria que você irradia. — Obrigada, raio de sol. Quase enrubesço. Você me quer vermelha? É tão delicado e suave... Eu me assustei porque sou uma boba sonhadora; estava pensando na nossa imortalidade. — Imortalidade, flor? — Sim, imortalidade. Felizmente, porque o mundo precisa muito de nós para expressar amor e paixão, colorir as alegrias, suavizar a morte de entes queridos e aliviar o sentimento de perda. — É verdade, mas não entendo porque imortalidade. — Todas as formas de vida existentes na Terra são imortais, raio de sol, através de sua descendência quando se estabelece uma linhagem, sua continuidade e o aperfeiçoamento dos seus exemplares pela sucessão e evolução. — Caramba, flor, como sabe você dessas coisas? — Geração após geração nós as ouvimos dos humanos nas várias oportunidades nas quais estamos ou estivemos presentes. São coisas que se vão incorporando à memória de nossa espécie, depois ao nosso DNA. Você sabe, raio de sol, o que é DNA? — Isso eu sei, nós também entendemos a fala dos humanos. Eles falam de muitas coisas, especialmente ao ar livre; quando escavam, fazem pesquisas arqueológicas, eles falam muito desse tal DNA. A gente acaba aprendendo e incorporando essa, como muitas outras coisas, à nossa memória, como diz você. Mas tudo isso me entristece. — Por quê, raio de sol?

— Um dia morreremos, nossa fonte se apagará. Na realidade, somos projeções do seu estiolar à medida que o seu combustível se vai consumindo enquanto somos produzidos. Quando o combustível esgotar-se, a casa de nossa ascendência desaparecerá e nós desapareceremos para sempre com ela, não mais seremos úteis para nada.

— Você está enganado. — Como enganado? — Quando a casa de sua ascendência esgotar o combustível do seu núcleo, ela colapsará, transformando-se em uma anã branca, pequena, mas muito densa e quente, embora de baixa luminosidade, e se porá a irradiar energia até se esgotar completamente e converter-se em uma anã negra. — Não dá no mesmo? — Não. Tudo é criado a partir da energia. A vida não se extingue, ela se renova em ciclos. Você sobreviverá sob outra forma, na forma da energia irradiada pela anã branca, que se transformará na casa de sua descendência, concorrendo para a formação de novos ‘sóis’, novos mundos, novas formas de vida. A partir das estrelas, dos novos ‘sóis’, você voltará a ser projetado. Mas, olha, raio de sol, às vezes você e os seus são muito maus, queimam tudo, as plantas que alimentam, estorricam o solo... — Você tem razão. Na verdade, somos todos uma coisa só, como os humanos, alguns bons, outros maus, dependendo da hora, época e lugar. Queimamos ali, mas suavizamos acolá. Embora da mesma espécie, temos ‘naturezas’ diferentes, podemos ser abrasadores, mas sabemos também ser suaves. — Nós também somos como os humanos, raio de sol. — Também, flor? — Também! Um dia eu fui uma mulher. — Não brinca comigo, flor; eu a estou amando muito. — Eu também o estou amando muito, raio de sol, não estou brincando. Minha linhagem nasceu, começou no túmulo de uma linda mulher sepultada aqui no vale, por isso a minha suavidade e beleza. — Flor? — Sim, raio de sol? — O que faremos do nosso amor? — Ele será eternizado. — Como, flor? — Você me fecundará, eu produzirei sementes que o vento dispersará pelo vale, assegurando a minha sobrevivência para ser novamente fecundada pelos raios de sol que se originarão de você, da energia irradiada pela anã branca convertida na casa de sua descendência. Voltaremos a nos encontrar em outros ciclos da vida, em outras existências.

O raio de sol a olhou com ternura. E no esplendor da manhã gloriosa em luz, ela abriu-se completamente e ele a fecundou. Ficaram juntos por todo o dia. Depois, o pôr do sol, o momento do suave escurecer, a paz sobre o vale, um céu de tantas estrelas, tão próximas, que parecia quase se tocarem. Naquela noite mágica, fecundada e feliz, adormecendo, a pequenina flor sonhou sonhos de amor.

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