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  • Onair Nunes

O IMPONDERÁVEL


E continuo sem vontade de falar de Economia. Suas questões nodais não estão em pauta. O que está sendo discutido não supõe, sequer, a existência localizada das razões porque estamos como estamos. Ao contrário, nossos problemas econômicos, e os problemas decorrentes, notadamente sociais, são um rio de fonte única que se pode converter em caudal se receber como afluente um tributário chamado Reforma da Previdência, tal como proposta. No momento crucial pelo qual estamos passando ela não é necessária, pode esperar um pouco; não vai resolver nada em termos macro brasileiros e tem boas chances de agrava-los, já que atenderá a imposições, somente imposições, em vias de se tornarem o método real de mudar as coisas no Brasil sem cuidar dos efetivos problemas brasileiros.

“Quem me garante que, além de eu estar assistindo televisão, ela também não está me assistindo?”

São palavras de Henfil colocadas na “boca” de Ubaldo, o paranoico, um de seus personagens. Paranoia? Sei não. Quem sabe ele já não sabia de coisas que vieram depois? Vieram? Ou já existiam? Ué, você não sabe? Sabe o quê? Televisão tem olhos? Bem, Elegância, 1984 ficou pré- histórico, a eletrônica disparou numa corrida frenética de não se saber onde irá parar. Tem um lado bom; fica-se sabendo das baixarias de que são capazes os bons-moços. A partir de certa altura fica até fácil manipula-los. Por exemplo, vai-se a uma farmácia, pede-se determinado produto para determinado problema; trata-se o assunto como se fosse com acanhamento, mas em voz alta, abertamente. Os “agentes” estão por aí, nota-se por atitudes características. Depois, nos dias seguintes, ouvem-se coisas em estreita ligação com o que se fez, identificadas com o problema. O propósito não é ajudar, é achincalhar; já se avisou outras pessoas, é claro, do que se fez, dissemina- se a manipulação, espera-se pelo que certamente vai ocorrer. Nunca falha. Caçadores tornam-se caças. A Televisão. E até no interior da própria residência. Televisão tem olhos? Deixa-se o barco correr, e tome manipulação! Com uma porção de gente observando, acompanhando, sabendo.

A vida é feita de teses e antíteses, todo mundo é caça, todo mundo é caçador, momentos específicos, circunstâncias; conforme os envolvidos, caças e caçadores. Mas ninguém caça sozinho, ninguém é caçado solitariamente, depende de quem caça, depende de quem é caçado. Tudo é imprevisível, os imponderáveis regem o mundo.

Há pouco mais de 20 (vinte) anos Marcelo Gleiser escreveu “A Dança do Universo”, desses livros que não podem deixar de ser lidos pelo homem comum. Está lá, no início da página 348 da segunda edição da Companhia das Letras/Editora Schwarcz, São Paulo:

(...). Você não tem de acreditar (itálicos do original) nos cientistas. Você tem de compreender (itálicos do

original) suas ideias. Mais ainda, você deve duvidar seriamente de qualquer cientista que tente convencê-lo, baseado em argumentos científicos, da futilidade de sua crença religiosa. Em contrapartida, você também deve duvidar de qualquer sacerdote que tente convencê-lo, baseado em argumentos religiosos, da futilidade da ciência moderna. O importante aqui é evitar uma competição entre ciência e religião. Ciência não é um sistema de crenças, mas um sistema de conhecimento desenvolvido com o objetivo de organizar a realidade à nossa volta. Diferentes pessoas optam por diferentes caminhos; para alguns a ciência é suficiente, enquanto para outros a religião é suficiente. O essencial é evitar a trivialização do debate entre as duas. Se escolhermos cruzar as fronteiras entre a ciência e a religião, que seja para buscar sua complementaridade, como as vidas de Kepler, Newton ou Einstein ilustram de modo tão transparente. Em minha opinião,

somos definidos por nossas escolhas, e o caminho da “pro-cura” (aspas do original) envolve tanto conhecimento como crença. Essa complementaridade é a essência do que define o ser humano.

O que isso tem a ver com o que disse Ubaldo, o paranoico? Tudo. Contra a ponderada sugestão de Marcelo, crê-se em cientistas e sacerdotes. Só que no meio dos dois está o imponderável. Volta e meia a complementaridade — eu escrevi noutro texto sobre a complementaridade dos opostos — fica um bocado difícil. Após a cristalização da crença ou da não-crença é quase impossível crer-se ou deixar-se de crer.

Hoje estou me sentindo machucado: Os pais viajaram para o exterior, deixaram a filhinha de seis anos com a avó. Não existe abrigo mais seguro do que vó. A vó levou a netinha para passear no Shopping, muito felizes as duas, pode-se adivinhar. Ao voltarem para casa, cerca de dois quilômetros, aquela chuva estúpida de ontem/anteontem, de volume imprevisível, provocou um deslizamento de terra no caminho das duas, soterrando o taxi em que estavam; morreram soterrados a netinha, a vó e o taxista. A ciência não foi capaz de protegê-las, não por desídia, dona Laura explicou bem didaticamente; tudo muito imprevisível, os cálculos necessários, nas circunstâncias, são de complexidade quase insuperável. De outro modo, nenhuma crença seria capaz de protegê-las. A única saída teria sido ficarem em casa, ambas estariam vivas, também o taxista. Mas como saber? O imponderável não é de nenhum modo identificável.

Voltando a Henfil e a Ubaldo, o paranoico, e enquanto tragédias incompreensíveis acontecem, quem está “do lado de dentro” da televisão, e os seus inspiradores, brincam de Deus. Biólogos escrevem livros tentando convencer as pessoas da futilidade de suas crenças religiosas, e, pior, sem nenhuma base científica, que Deus, tal como correntemente entendido, não é uma questão científica. Sonoras e escandalosas bobagens.

O caminho da procura envolve tanto conhecimento como crença, escreveu Marcelo. E parece ser assim mesmo, mas, um olho no padre outro no cientista, não se deve deixar de reservar um espaçozinho para o imponderável. Estar sempre muito certo de tudo, seja por uma ou outra via, às vezes não ajuda muito, dado existirem entre o céu e a terra mais coisas do que supõe a nossa vã filosofia. Não é, Mr. William?

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