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  • Onair Nunes

O OVO OU A GALINHA?


SABE-SE COMO COMEÇA, NÃO COMO ACABA. NÃO DEIXA DE SER PERIGOSO, PORTANTO, BRINCAR-SE COM QUEM SÓ SABE OU QUER BRINCAR COM OS SEUS PRÓPRIOS BRINQUEDOS

O planeta Terra e sua vedete, o ser humano, não são produtos acabados. A Terra, por definição insuficiente do ponto de vista quantitativo, é selvagem e violenta desde as origens, com gigantescos vazios estruturais, cujos ajustes e movimentação de placas provocam fenômenos de alto poder destrutivo; o ser humano, uma extensão adaptada do réptil e da fera, presentes no cérebro antigo, apenas circundado pelo cérebro novo, o córtex cerebral, não foi de modo natural por este submetido, tornando réptil e fera, por consequência, invasivos, a romperem frequentemente os limites de sua clausura hipotalâmica, projetando-se no humano.

A Terra, por suas insuficiências quantitativas cede a si mesma, o ser humano, por suas falhas e deficiências construtivas, traz consigo o rastejar do réptil, a ferocidade da besta, paraísos e infernos, santo e demônio compondo a criatura dúplice, contraditória e imprevisível que somos, capaz das mais sublimes manifestações e das maiores aberrações e abjeções. A Terra, seara do ser humano, tem de ser domada; o homem é o seu próprio flagelo, tem de domesticar-se.

Tudo sopesado, não é despropositado considerar-se finalidade da vida humana o seu contínuo aperfeiçoamento pelo uso positivo das faculdades e potencialidades que fizeram do homem o animal superior que se pretende seja, implicado na valorização do saber crítico voltado para o mais profundo autoconhecimento, formação e consolidação de uma cultura capaz de desenvolver as potencialidades humanas, habilitando-a para a transformação das verdades vigentes e traduzida na libertação dos condicionamentos sociais e históricos que fizeram do ser humano a caricatura de si mesmo, que é, como espécie.Há um poderoso aliado para isso: A submissão da alma, o hipotálamo, sede dos instintos, pela continuada desenvolução do espírito, a consciência, fator tardio que, aportando no pré-homem pela expansão do córtex cerebral, enseja o alcançamento da humanidade plena.

Lição a ser extraída: As verdades últimas não existem, nem a perfeição, no

domínio das coisas terrenas; a partir do homem em si, nada humano é irretocável.

Percorrendo o quanto queiramos a escala do conhecimento, perdemo-nos vezes seguidas de dúvida em dúvida, indagando-nos de nós próprios, perquirindo Deus; a criatura, insegura em face do que não consegue compreender senão de forma incompleta, uma consequência de si mesma, anseia seja-lhe revelada a Sua face, a face do criador, assim mesmo, com "c" minúsculo, ou negando-O, e negando-se, quando não equipada ou sensorial e humanamente incapaz de reconhecê-LO fora do cativeiro dos templos. Nesse campo de ideias, não raro nos ocupamos de imagens simplórias para exprimir certezas e dúvidas, em si nada simplórias.

Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Foi a galinha, claro, dirá o deísta; Deus fez o mundo, os mares, as montanhas, as plantas, os animais terrestres e aquáticos, os astros, as estrelas, tudo, afinal. Depois a galinha começou a botar ovos. E Pronto!

O evolucionista concorda, a galinha nasceu primeiro. O deísta se alvoroça: Está vendo, não falei?Até esse ateu empedernido concorda comigo. O evolucionista cala, não faz sentido polemizar, cada um na sua; se o deísta é feliz com suas crenças, ótimo! Desde que não se prejudique ou tente colonizar os outros, creia-se, descreia-se ou não se creia, ninguém tem nada com isso. Alguma coisa, porém, começou a remexer sua cabeça; resolveu “dar um toque”, ligeiro, para não dar a impressão de que opiniões contrárias à sua não teriam qualquer chance —pergunte só ao Cacá Diegues o que ele pensa a respeito desse negócio de não dar qualquer chance às opiniões dos outros. A rigor, a galinha não nasceu, diz o evolucionista; ela, como todas as aves, evoluiu dos répteis voadores, evoluídos daqueles pequenos dinossauros carnívoros que perseguiam suas presas aos saltos, em princípio tímidos, depois mais e mais extensos. A projeção contínua dos omoplatas e o esforço para isso despendido foram-nos distendendo até formar membranas que em milhões de anos se tornaram asas, as penas uma etapa posterior em razão das necessidades de proteção durante o voo, isso para ser bastante sucinto, a considerar que os répteis voadores, por serem répteis, botavam ovos. Alguns exemplares, em virtude de características muito próprias e das inovações comportamentais por elas impostas, provocaram flutuações genéticas que iniciaram um processo evolutivo na direção de criaturas de sangue “quase-quente”, depois quente. Aí, pois, as aves, os pássaros, cantos maviosos … e a galinha!

— Você complica tudo, ateu, quer é confundir.

— Está bem, volto a calar-me; se você não é capaz de entender,

ou pelo menos tentar entender…

— Eu já tenho a compreensão de que preciso!

— Está bem, está bem, desculpe…

E lá se vai o “ateu” saindo de fininho.

Muitas coisas acontecem no dia a dia exatamente como na dúvida sobre o ovo e a galinha, como na certeza do deísta, como na simplicidade despretensiosa do “ateu”; há de montão quem receba o pacote pronto, tome o seu conteúdo por verdade absoluta e pronto! E há o “ateu”, aquele ser humano que indaga, perquire, analisa, alguns, boa quantidade até, por dever de ofício. Afinal, os sacerdotes, em grande maioria, têm as suas razões, relativamente às quais, em especial quanto às razões dominantes, nunca se sabe nada uma vez que os mensageiros das verdades indiscutíveis jamais entram em detalhes, sequer falam sobre eles.

As reformas Trabalhista e da Previdência enquadram-se nas hipóteses vertidas. Por partes: Quem nasceu primeiro, o trabalho ou as regras trabalhistas e previdenciárias? O trabalho está na origem mesma da vida, no seu manifestar-se, no vencer as hostilidades da natureza, na construção do abrigo, na caça, na busca por alimentos, na especialização, na raiz de toda realização humana, água forte da dignidade pessoal, de quem é útil e produtivo no seio do seu grupo e no concerto dos grupos humanos em geral. E tanto mais complexas se foram tornando as sociedades humanas, maior a necessidade de regras para disciplina-las.

Dizia-se, para obter a aprovação da reforma trabalhista, que ela criaria empregos. Não criou, e isso foi claramente previsto pelos “ateus”. O desemprego, depois dela, aumentou vertiginosamente. De igual modo, diz-se que a reforma da Previdência, tal como proposta, criará empregos. Não criará, porque essa é uma das situações em que a brilhantina nada tem a ver com os cabelos. A regra trabalhista existe em função do emprego, para disciplinar e regulamentar as relações de trabalho; sem emprego ninguém precisa de leis trabalhistas, da mesma forma que sem trabalho não se há de falar em Previdência, dado que esta só labora, só se faz necessária para proteger o fruto da atividade laboral na contrapartida final quando o ser humano já não tiver força física, psíquica e intelectual para seguir trabalhando e precisar de uma Previdência justa e competente que lhe assegure uma aposentadoria decente e lhe proporcione uma vida digna.

A Reforma da Previdência, tal como proposta, representa um “vazamento” de renda dos pobres para os ricos, uma prática histórica no Brasil. E porque inacreditável, o blog permite-se observar que emitir moeda, uma dicção que vai dos extremos do terrorismo à piada, não é saída para o déficit que, evidentemente, a serem mantidos os critérios administrativos atuais, tende a se manter ou ampliar, mas desaparecerá quase num estalar de dedos à medida que essas transferências de renda que sangram os pobres forem deixando de existir, quando recursos mal direcionados, como os subsídios improdutivos, forem cortados, assim como quando começarem a ser cobrados os débitos dos grandes devedores da Previdência, apenas dois exemplos da escandalosa transferência de renda pobres→ricos. Qualquer criação de novas responsabilidades ou retirada de direitos da população para seguir com esse escândalo agravará o quadro de transferência, materializará a maior das tragédias sociais das últimas décadas no Brasil.

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