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  • Onair Nunes

A VIDA, O TEMPO...


Sentados à mesa para dois, conversavam, descontraídos, mas educadamente, falavam baixo, quase nenhum gesto. O homem mais moço, cerca de 50 anos, um pouco menos, talvez, escutava a resposta a uma sua pergunta, o leve sorriso, o olhar, puro carinho, estampados no rosto sereno, de expressão firme, contudo; transmitia força. O mais velho, que já não aniversariava, tantos os anos vividos, terá sido na juventude e na meia-idade um homem bonito; guardava, ainda, discreta elegância, a postura de quem sabe o que e quem é, a classe de homem que jamais pediu licença para viver. Braço esquerdo dobrado em ‘v’ para a frente, ligeiramente afastado do corpo, abriu a mão de dedos juntos, meio em concha, um claro convite; segurou o copo de haste alta e delgada com a mão direita, o vinho tinto certamente bem escolhido para acompanhar a salada bem posta no prato. O mais moço ergueu o seu copo num gesto seguro e discreto, o mais velho fez o mesmo, com elegância; a mão tremia, tremeu ao aproximar o copo para o brinde, não conseguiu firma-lo. Cristal fino, estilhaçado sobre a mesa, o vinho espalhou-se farto na alva toalha, contrastando-a vivamente. Um garçon apressou-se, expedito, o mais moço o conteve à distância com um gesto enérgico. Tudo aconteceu num átimo, em segundos. O mais velho levantou a cabeça, uma lágrima a rolar-lhe rosto abaixo.

– Desculpe-me, os anos passaram, já não me posso permitir, sem risco, um singelo brinde a quem mais amo.

– Não se preocupe, neste breve instante passou-me pela cabeça boa parte da minha infância, adolescência, nossas idas ao futebol, as caminhadas, juntos, na areia fina e fofa da praia para corrigir o arco dos meus pés, a mesma praia onde, alguns anos depois, eu jogava bola sem saber que você, à distância, olhava por mim, a educação que recebi, a boa-fé, os exemplos, a sua confiança irrestrita. Você foi o meu herói, hoje é o meu velho, um é prolongamento do outro.

O mais moço chamou o mesmo garçon a quem parara, pagou a conta, o copo quebrado, deu-lhe polpuda gorjeta e pediu-lhe para cuidar de tudo. Saíram. Nenhum gesto de pena, nenhum lamento. Respeito. A proximidade vigilante.

O manobrista trouxe-lhes o carro, entraram. O mais moço inclinou-se para o lado direito e beijou o velho homem:

– Eu o amo, papai.

– Sou reconhecido à vida por me haver escolhido veículo de sua chegada a esta existência. Agradeço-lhe o privilégio de ser seu pai.

Fisionomia serena, olhava, cabeça erguida, para a frente.

Partiram.

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CARRINHO