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  • Onair Nunes

A VERDADE


Se você tem um problema que pode ser categoricamente demonstrado, ele constitui-se numa verdade; em sendo ignorado, ou dele fugindo, sem ataca-lo de frente, você jamais poderá equaciona-lo, resolvê-lo. O primeiro passo para a solução de um problema compreende o reconhecimento de sua existência. E isso só depende de você.

A verdade, para Platão, consistia-se num processo abrangente do que era conhecido no seu tempo e do modo pelo qual o conhecimento era adquirido; ele diferençava as crenças falsas das verdadeiras ao afirmar que a verdade é uma tradução dos fatos. (…).

Desde o século 4 a.EC, nem formulada ainda a pergunta do romano, o grego definiu a verdade: Se encerra um fato — e o fato é efetivamente o que ocorreu ou ocorre — a afirmação contém uma verdade; se não, a questão deve ser ignorada. O que mais se diga com relação à verdade é pura enganação. Não faz sentido abordar como verdade ideias ou crenças não provadas ou de duvidosa comprovação porque tudo o que lhes concerne não faz parte do mundo aparente, tátil e substantivo; somente depois de converter-se a ideia em fato ou da crença tornar-se realidade, revelando o conhecimento intuitivo de um fato, é que ambos podem ser avaliados. Ideias são ideias, crenças são crenças e fatos são fatos. O conceito de verdade deve advertir o princípio da realidade a fim de aproveitar ao ordenamento individual, de grupos ou sociedades. Sua busca, de outro modo, não versa a verdade em si, que assim será entendida quando encontrada e, como tal, caracterizada. Mudam as verdades se mudam os fatos, hipótese em que ela não perde o seu caráter absoluto; ao contrário, por ser absoluta, muda quando os fatos se modificam, concordemos ou não com isso.

A teoria da coerência aplicada à verdade deve conferir-lhe inteireza e irrefutabilidade; ela mudará mesmo quando decorra de fatos-parte de um conjunto passível de revelar-se falso quando detalhes comprometam sua abrangência. Tomando o clássico exemplo de Platão, Tætetus voa, e sendo necessárias premissas verdadeiras para chegarmos a uma conclusão verdadeira, cumpre indagar: Tætetus tem asas? São elas tão desenvolvidas que lhe permitem voar? Ele já voou antes? Se a resposta a qualquer dessas indagações for negativa, a afirmação Tætetus voa é falsa, não contém uma verdade; se positivas todas as respostas, ela é verdadeira. A abrangência e a coerência estarão presentes no alcance do nexo causal e na harmonia e lógica entre os fatos. Mas pode ter ocorrido que, a despeito de Tætetus ter asas, desenvolvidas ao ponto de lhe permitirem voar, e de já haver voado antes, sua reação psicológica ao vôo foi tão determinantemente negativa que ele não consegue mais voar, isto é, um fato superveniente modificou a seqüência e o conjunto anterior de fatos, suprimindo-lhe a abrangência e rompendo-lhe a coerência. Então, a verdade absoluta anterior, porventura contida na afirmação Tætetus voa, deve ser substituída pela nova verdade absoluta, Teætetus não voa.

Eliminando qualquer possibilidade de atribuir-se caráter relativo à verdade, sua busca deverá ser empreendida sempre que houver interesse em determiná-la. Tomemos outro exemplo (…).

Sumarizando, podemos ser levados, em visão apressada, a concluir confundirem-se os princípios éticos e morais, (…), atribuindo-lhes sentido amplo, levam-nos a despencar na vala comum do relativo, descaracterizando-os na generalidade imprecisa e vaga na qual tudo é aceito, muito atraente para os profetas do caos.

Delineado o quadro geral do trinômio ética-moral-verdade, com a amplitude permitida neste trabalho, nada será dito, afinal, se os temas não forem tratados do ponto de vista da pessoa comum para deles ajuizarmos em termos objetivos, aplicáveis ao cotidiano. O mestre espanhol dizia que nossas doutrinas éticas e filosóficas, em geral, não costumam ser senão a justificativa a posteriori de condutas e atos, nossos e do nosso semelhante, por não sabermos, a rigor, porque agimos como agimos e não de maneira diferente, forjando-as pela necessidade de legitimar nossa razão de agir —Miguel de Unamuno, obra citada, p. 250. É pacífica, não obstante, e o próprio Unamuno abona, em termos de raciocínio, minha asserção de que o homem consciente não age ordinariamente por impulso, por instinto, antes extrai de suas reflexões normas de conduta eximidas de justificação porque suas atitudes são acordes a integridade e dignidade do seu caráter, forjado em ética, moral e verdade, seus orientadores existenciais, legitimação natural para as suas ações, em função dos quais se desobriga de dar as razões de ser como é e o dispensam da aprovação do meio em que vive.

Com Platão, inúmeros filósofos postularam serem as mesmas para todos as mais altas expressões éticas; não parece ser assim. As sociedades têm valores fundamentais rigorosamente diversos; (…).

Não há preceitos éticos coletivos, mas sim mero senso comum, não obstante a existência de princípios éticos absolutos conexos à integridade e à dignidade do ser humano em qualquer latitude ou longitude, tal como a imparcialidade, a autoridade pessoal, o sentimento de brio e o completo respeito aos princípios de retidão comportamental que definem o homem como ser superior quanto às suas manifestações e expressam sua grandeza de sentimentos, honestidade intelectual e simplicidade de visão de mundo quanto aos seus estados interiores, sem implicar alienação ou ingenuidade; ser ético, afinal, não é ser tolo.

A moral de seu turno exprime-se em sentido estrito a partir de uma filosofia própria, íntima, pessoal, de honra e decoro genuínos, por sentido estrito compreendendo-se, de maneira objetiva, a síntese das aspirações de respeitabilidade do homem quanto aos costumes. Em acepção ampla, e de modo especial quando se analisam as tradições morais de determinadas sociedades, constata-se, diferentemente da existência de princípios éticos absolutos, ser a moral uma questão de época, latitude e longitude. Dentre certos povos aborígines cabe ao pai, nas núpcias, desvirginar a filha para, cumprindo um ritual arquetípico, dar ao noivo garantia da normalidade da filha e de suas plenas condições para gerar filhos, solenidade imposta pela necessidade de incrementar a quantidade de exemplares para preservar a raça e assegurar mãos para o trabalho. Conforme Mircea Eliade —Mito do Eterno Retorno, Mercuryo, São Paulo, l992, Tradução de José Antonio Ceschin, p. 99 —, no oriente antigo as virgens passavam uma noite no templo para conceberem o filho de um deus através do seu representante, o sacerdote, ou do seu emissário desconhecido, que, de supor, poderia não ser tão desconhecido assim, ou, ainda referido por Eliade na p. 32 da obra citada, e na forma do Livro IV do Li Chi, o Yüeh Ling, Livro dos Regulamentos Mensais, as esposas deviam apresentar-se ao imperador no primeiro mês da primavera, o tempo do trovão, para com ele coabitar, em cumprimento, também, de uma formalidade arquetípica.

Os arquétipos fazem parte do cotidiano do homem ocidental; sem a menor ideia de que o faz, e sem que isso lhe passe pela cabeça, ele perpetua rituais arquetípicos habitualmente de cunho sagrado, como a cerimônia de regeneração do tempo consubstanciada nos festejos de passagem de ano. Acresça-se o triunfo sobre a morte e a devolução em sacrifício do filho (…) gerado por um emissário, o Anjo, com o estabelecimento de novo tempo a partir daí, como na representação ritual (…).

A verdade, deliberadamente examinada no fecho destas reflexões em virtude do significado absoluto que traduz, não é crença ou ideia, mas algo imanente ao ocorrente, não sujeito a especulações de qualquer índole. Como eu disse nos Apontamentos, lastreada nos fatos, valor ético aposto a todos os demais, como tal e com caráter próprio se contém tão somente em si mesma. Em termos rigorosamente objetivos e com os mais intensos reflexos, a verdade deve ser em intransigente e última análise a finalidade de toda a atividade intelectiva; não o sendo, não haverá modo intelectivo, mas tão somente pantomimas, tudo não passará de uma grande farsa.

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CARRINHO