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  • Onair Nunes

REMEMORANDO E REGISTRANDO


O artigo abaixo foi publicado originalmente em 10 de Maio de 2015; é tão ou mais atual do que quando escrito. Em seguida a ele, transcrevo a publicação de 20 (vinte) de Janeiro de 2011 compreendida por texto alegórico que diz de realidade bem presente, e por pequeno excerto do livro/capítulo VIII de A Conspiração dos Medíocres, O Reencontro; no capítulo, escrito há mais de 15 (quinze) anos (na verdade há mais de 20 - vinte - anos), eu conto a história de Marie-Anne e Jean-Philipe. Ambos estão há bom tempo em onairnunesblog.com para quem os quiser ler. E a partir de agora aqui em onairnunes.com/Wix.

O DIREITO NATURAL, A LEI E AS TENDÊNCIAS DISSOLVENTES

Nos estados inferiores da vida humana sua finalidade é incerta e mutante; no horizonte intelectual e moral do homem educado, a vida é como uma obra de arte concebida em seu conjunto como um projeto de realização de exigências do direito natural, que não se fundamenta na vontade de homens, em constante mutação. No campo do direito natural, o direito é preexistente; a lei que o define e normatiza é somente modo de sua instrumentação. Não se pode, pois, dispor daquilo sobre que não se tem nenhum direito, pressuposto da lei, derivada para a convenção quando se trate de acordar a propósito do que é por ela permitido.

O direito tem caráter objetivo fundado na natureza humana, nas necessidades que, atendidas, resultam no desenvolvimento material e moral das Sociedades, criando condições para o seu progresso espiritual. É a razão que anima o direito na busca de aperfeiçoar-se; é o desejo de aperfeiçoamento, um dos atributos da natureza, que o põe em movimento. Mas a inteligência e a aspiração do bem se podem frustrar com medidas inovadoras que se queiram desenvolvimentistas quanto às relações sociais. O aperfeiçoamento da lei tem os seus limites no concerto da maioria; a lei consagrada à minoria é demagógica, injusta e antinatural. Em qualquer hipótese, porém, o direito resta eterno como a necessária dignidade e intocabilidade da vida humana, sem as quais ela perde sua razão de ser posto serem esses os seus elementos formadores e impulsionadores; qualquer estado a menor disso a descaracteriza, retroage o ente civilizado ao meio caminho entre o mono e o homem. Integrado e adaptado à Sociedade, o seu conceito de liberdade jamais extrapolará os limites da lei, refratária a pretensões, regras ou costumes que lhe sejam estranhos.

O princípio da liberdade, por fim, aplicado com rigor crítico às doutrinas e formas religiosas, foi transportado para o domínio social e político. Disseminando-se, ele penetra amplamente nas camadas populares; toda tentativa de destruí-lo ou elidi-lo é contrária aos desígnios da natureza e agride os preceitos do direito natural. A longo prazo é uma quimera. Esse princípio deve manter-se em harmonia com todos os pressupostos morais e éticos, que se haverão de conservar e proteger contra as tendências dissolventes que com frequência se associam aos movimentos liberais e renovadores dos tempos modernos.

(Baseado em Henri Ahrens, Cours de Droit Naturel ou

de Philosophie du Droit, Bruylant-Christophe et Cie.,

Bruxelas, Bélgica, 1860)

ARQUIVOS MENSAIS: JANEIRO 2011

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20 Almas penadas, trickester e excerto

Quinta-feira

Os textos consistentes sobre fantasmas – aqueles que não se limitam a contar sobre eles histórias para os aficionados – são alegorias; neles nem todas as palavras têm o sentido corrente. No texto do qual decorre esta postagem povoado não é exatamente um aglomerado de pessoas vivendo em determinado lugar, estrondo não é propriamente um barulho ensurdecedor, palmeiral não designa necessariamente um conjunto de palmeiras e assustado não quer dizer amedrontado, atemorizado. São recursos literários para transmitir alguma coisa. Usei este método no livro para descrever o nascimento do Universo.

E, sobre fantasmas, uma paráfrase do dito popular espanhol: Yo no creo en almas en pena, pero...

O povoado está penalizado.

Investigados os últimos acontecimentos, verificou-se tratar-se de pobres espíritos errantes, almas penadas, dessas que assombram casas em cujo piso fazem cair objetos, acendem luzes em corredores escuros, produzem estranhos ruídos. Quando vagam por aí seguindo pessoas lembram o trickster, descrito por Otávio Mendes Cajado, tradutor de Loren Eiseley em o Universo Inesperado, Cultrix, São Paulo, do qual tomei emprestado o primeiro trecho do Capítulo 4, O Inverno Colérico, para epígrafe do livro/capítulo cujos excertos ofereço a seguir. Em nota de pé, à página 54, Cajado descreve o trickster como um ser malicioso e sobrenatural, encontrado no folclore de vários povos primitivos, onde desempenha, não raro, o papel de herói cultural, e muito dado a caprichosas demonstrações de astúcia e fraude.

No corpo da página, entre as 170 do seu livro, culturalmente rico, ao mesmo tempo em que simples e delicado, para ser lido com os olhos do coração, Eiseley diz do trickster:

(...) às nossas costas, mascarado e demoníaco, como lhe vi o papel representado entre os remanescentes de um povo selvagem, há muito tempo. Era o papel do chalaceador presente à mais devota das cerimônias. Essa criatura nunca se ria; nunca emitia um som. Pintada de preto, seguia em silêncio o sacerdote oficiante, arremedando, com o floreio acrescentado de um pequeno chicote, os gestos do devoto celebrante. Os seus trejeitos estilizados, nos momentos precisos, comunicavam uma zombaria infinitamente mais formidável do que o verdadeiro riso.

O trickster é um farsante. Materializado, mantém apenas a astúcia e a vocação da fraude; pode ser vislumbrado, até fotografado, por caça-fantasmas experientes. Modernamente, assume formas humanas diversas, não se pinta de preto; às vezes usa roupas ridículas. Ele é ridículo.

Almas penadas e trickster, quando percebidos e/ou referidos, entram em grande atividade, não se alcança exatamente porque, salvo no revide ou para se mostrarem, como se dissessem: Eu sei, você está preocupado, eis-me aqui! Nada direto, porém, aberto, honesto. Pobrezinho, não, não é isso. Como espíritos desorientados que são, dão-se a si muito além do que merecem e se festejam numa celebração melancólica que mais os afunda na escuridão de sua primariedade. Os habitantes do povoado conclamam-se, e a quantos possam, para orar por esses espíritos sem luz, doutriná-los, fazê-los compreender que por aqui já não têm lugar. Num mundo civilizado, superiormente estabelecido, entre pessoas educadas e bem-formadas, a sua primariedade, embora a estafada expressão, está fora de contexto.

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LIVRO VIII

O REENCONTRO

Chega um momento em que criaturas cujos destinos

se cruzaram em algum ponto do passado remoto

são obrigadas a ajuizar umas das outras

como se fossem totalmente estranhas.

(Loren Eiseley – O Universo Inesperado, Cultrix, S. Paulo, p. 66 –

Tradução de Otávio Mendes Cajado)

Adriano vivia no lado leste da ilha em companhia dos pais e irmãos em uma casa branca de aspecto acolhedor plantada no pequeno recôncavo situado entre as praias do Sudeste e Santa Helena, de frente para o mar azul esverdeado que contornava o Pontal e ia lamber as bordas da terra interior, formando pequena baía. Uma faixa de areia muito branca guarnecia a marinha desde a grande pedra que delimitava o recôncavo pelo lado da Praia do Sudeste, estendendo-se como alvo lençol até um pouco além da cabana de Antero, o pescador, que ficava quase na curva para Santa Helena, a partir de onde a areia tornava-se grossa, de tom dourado. A casa, a que se chegava pela praia quando a maré estava baixa, era alcançada na maré montante por um caminho rasgado na encosta do morro, a cavaleiro do mar, desde a Praia do Sudeste, serpenteando entre árvores e arbustos crescidos sobre um verde tapete de capim-limão; ficava por trás de uma cinta estreita e longa de sapê que separava da praia o quintal de areia fina coberto de cajueiros, pitangueiras e coqueiros nativos.

Era agosto, quase setembro, quando as pitangueiras começavam a florir. Da chácara, na vertente do morro, atrás da casa, vinha um ou outro canto de cigarra, dando aos dias já claros e azuis um "quê" do morno início de primavera da região, a despeito do amanhecer tardio e da brisa fresca, quase fria, que soprava nos fins de tarde, vinda do oceano grosso desdobrado para além do Pontal, do lado esquerdo, e do alto promontório alcantilado, à direita, que formavam a boca da barra.

(…)

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