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  • Onair Nunes

PARA ONDE ESTAMOS CAMINHANDO


Sentados à sombra da jaqueira do compadre comum Mário Celso, conversavam Orestenes de Cataguazes e Vérgio Cirilo, de Varginha. Filosofavam:

— Vivemos um tempo de desmanche social e político devido à desagregação moral e religiosa.

—Moral eu concordo, compadre Vérgio, mas por que religiosa?

— Parece quererem fechar as portas do céu e atirar as chaves no mais profundo dos abismos.

—Céu, aquele da mitologia e das fantasias religiosas?

— Não, compadre Orestenes, eu falo das formulações mitológicas e fantásticas que sustentam os símbolos.

— Então, em termos simbólicos, já que o assunto é céu, religião, essas coisas, o inferno está incluído?

— Não em termos religiosos ou simbólicos. O inferno está bem pertinho de nós, refletido num amplo conjunto de coisas a nos rodearem.

— Não podemos deixá-lo de lado, ignorá-lo?

—Não, não podemos; está rodando por aí um bando de lunáticos cujo projeto é, abertos os portões do inferno, libertar todas as suas criaturas. Um bom número delas já está na estrada.

— E se fizerem isso, compadre?

— A pergunta não é “se fizerem”. A operação apenas não está concluída.

Honra e dignidade, irmãs gêmeas, são atributos intrinsecamente humanos. Em uma ameba não se cogita honra ou dignidade, assim como de um porco-espinho ou de um verme. Inversamente, na ausência da honra e da dignidade, o indivíduo da espécie homo é apenas o mamífero vertical exposto a si mesmo, um repositório de instintos prevalecente nos humanos estacionários, aqueles não evolucionados na direção do espírito. Esses, pois, não cultivam ideias, agem segundo o impulso interior, executando inconscientemente atos voltados às necessidades de sobrevivência própria, da sua espécie ou da sua prole.

Ideias são as ameaças mais temidas por vocações e regimes totalitários, cruéis e intolerantes História afora; os livros que as contêm e divulgam são objeto de ódio irracional. Pode-se fazer a conta de quantos morreram nas garras das Inquisições por suas ideias? Impossível combatê-las, perceberam logo, por isso exterminavam os que as professavam ou divulgavam. Há práticas a personificar o Inquisidor ao reverso, com as limitações, claro, de não estarmos na idade média, mas no século 21, embora certas práticas e comportamentos retrógrados, mais para a escuridão daquela do que para as luzes deste.

Si cette idée ou cette ɶuvre vient des hommes, elle se détruira d’elle-même.

(Gamaliel,Atos, 5, 35, apud Léopold Willaert in Après Le Concile de Trente —La Restauration Catholique, 1563 – 1648, Bloud & Gay, 1960, Histoire de L’Église)

E nós nos perderemos!

Quando arraigadamente poderosas, as ideias compreendem-se nas raras manifestações humanas que podem ser eternas quando transformadas em legado às gerações posteriores. Agem como tresloucados os supostos combatentes contra Deus.

Acaso imaginam tais pobres homens que todos os frequentadores de sinagogas, templos, igrejas, locais diversos de cultos de toda sorte pensam em Deus como algo palpável, uma existência, um fato? Disse don Miguel de Unamuno, com o seu domínio da síntese, que Deus precisa do homem para existir; pois, pergunto eu, onde mais poderia Ele existir senão nos domínios do atributo essencialmente humano, a consciência, grandioso e magnífico quando projetado a partir de sentimentos nobres? Se existe naqueles que ainda não deram o passo em direção ao espírito, alter ego da consciência, Ele existe na alma, pelo instinto, que O pode somente projetar útil e serviçal, mesquinho, sátrapa e hipócrita porque assim são os humanos de baixas inclinações, incapazes do que quer se inspire na nobreza de sentimentos. Este quadro decorre da velha doutrina da dualidade e do antigo princípio de que o diabo é parte de Deus, os dois uma só entidade capaz de todas as belezas, mas artífice, também, do que de mais sórdido possa existir, tudo com fulcro em uma ideia, apenas uma ideia, que pode ser levada aonde queira o homem, expressão por excelência dessa ambiguidade.

E, em Deus, eu amo o meu país. Não por falta de opções. Há muito estaria longe, assim me aprouvesse. Respeito os patriotas de todas as pátrias. Quando, em repetidas circunstâncias, sempre está lá uma bandeira, como a assinalar-se e ao que está por trás dela, o que representa, não sou tomado por emoções que não são minhas, asseguro-me de estar no caminho certo quanto ao Brasil. Patriotismo é bom, confere identidade, implica respeito, lastreia a nacionalidade. Eu também, e sempre, quis, de tão bom, de tão honrado, o patriotismo para mim. E para os súditos do país a que amo. Fosse eu capaz de ódios, odiaria a falta de patriotismo, por extensão os ‘impatriotas’, os criminosos do crime de lesa-pátria. Da minha pátria.

[…]

[...]. Súbito seu coração disparou; ela dissera, certa vez, que assim completasse dezoito anos lhe daria a prova definitiva do seu amor, lembrou-se. Perturbou-se, ansioso.

Jean-Philipe instruiu um cavalariço a deixar encilhada a montaria de Marie-Anne e assisti-la quando a pedisse. Saiu a seguir, cavalgando a passo o caminho da ravina concentrado em seus pensamentos; havia algo se esboçando, refletia, [...]. A sombra de Ambroise de Sousse o rondava.

As relações entre eles nunca haviam sido normais; a princípio indiferentes, tornaram-se levemente agressivas, para, ao sabor do humor do senhor de Vailliers, se fazerem provocações permanentes, veladas ou ostensivas. Jean-Philipe, por seu turno, sensível à atenção e ao carinho da Senhora da Propriedade, desarmou-se. Reconhecia que logo à sua chegada houvera sido arredio ao ambiente de latente vulgaridade, apesar da riqueza que o cercava. Criança, ainda, não percebera, de saída, como isso o afetava; o passar dos anos, todavia, permitira-lhe melhor compreensão do que lhe ia no íntimo, com reflexos em seu comportamento. Viera de um ambiente de discreto refinamento e despojada elegância, no qual se sentira verdadeiramente amado, não suportando, assim, a piedade de que era objeto e os modos cúpidos e ostentatórios do meio em que passara a viver. Refugiado nos permanentes cuidados de Vicentine e na delicadeza e sensibilidade de Marie-Anne, desenvolvera sua personalidade segundo regras absolutamente estranhas à burguesia endinheirada e mal-educada com a qual passara a conviver. Agora, suas relações com o senhor de Vailliers se haviam deteriorado irreversivelmente; mesmo a Senhora, de quem recebia permanentes demonstrações de afeto, mostrava-se reservada; tinha as suas razões, reconhecia. Afinal, havendo atingido, como atingiu, o senhor da Propriedade, outra não poderia ser a sua posição. […]

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