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  • Onair Nunes

UMA TRAGÉDIA, MUDEMOS, ISSO É HISTÓRIA... (Publicado originariamente em Julho e Agosto de 2018)


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UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

Cada governante brasileiro que sai deixa para o sucessor um país pior do que recebeu, exclusive o governo Sarney, insuperavelmente desastroso. O governo Collor foi um thriller cômico/trágico, a Economia conduzida de modo ridículo. O governo Fernando Henrique foi lastimável, pecando clamorosamente quando, ao fim do primeiro mandato, não fez os inadiáveis ajustes no Plano Real, comprometendo a preciosa herança do breve governo do Estadista Itamar Franco por razões eleitoreiras; quando FH saiu, encerrando uma Administração com sabor adventício, o Brasil era modelo perfeito e acabado de fragilidade econômica e cambial, com ridículas Reservas de 38 precários bilhões de dólares americanos, um fragilíssimo coitadinho, uma plena, inexplicável e injustificada soberba. Aos dois governos Luis Inácio reserva-se o julgamento da História; eles abalaram, com pesada sacudidela verde e amarela, a longa história de desrespeito ao país e suas não-elites, algo insuportável para o critério desde sempre prevalecente, salvo nas Administrações Vargas, que, lamentavelmente, se teve de desenvolver ditatorialmente para conseguir nos dar rumo decente econômico, social e trabalhista ao promover as bases de sua industrialização e realizar a segunda abolição da escravatura no país. Os governos Dilma foram comprometidos, no início do segundo mandato, pela criminosa insanidade do não se elegerá, se ganhar não leva, se levar não governa, se governar, sai. Saiu, limpa, num impedimento sem sequer razoáveis bases jurídico/constitucionais, até hoje nada pesando criminal ou administrativamente de grave contra eles. A Administração atual é inqualificável, por tudo de ruim que representou para o país, ostentando por únicas coisas boas as medidas propostas pela destituída Sra. Presidente ao Congresso, que não as apreciou ou votou em seus mandatos, mas foi muito expedito ao apreciá-las e aprová-las logo ao início da colocação do Vice-Presidente na cadeira presidencial em governo que já acabou sem nunca haver de fato começado, senão formalmente, um governo natimorto que não merece, por isso, sequer os réquiens da extinção, certamente por não merecer o requiem æternam. Sem falar no Pré-Sal e na EMBRAER, que não pode ser absorvida pela fabricante estrangeira de aviões. Onde serão produzidos os nossos caças, escorrerá entre os nossos dedos a joia do avião de transporte, já testado e pronto para comercialização? Será mais um dos nossos esforços bem sucedidos entregues de mão beijada ao exterior? Começaríamos do zero, o que significa não ter indústria aeronáutica, assim como não temos uma montadora de automóveis e veículos pesados genuinamente brasileira, o nosso imenso mercado interno e as nossas exportações de veículos automotores colocados graciosamente nas mãos das montadoras estrangeiras. Armamentos e veículos blindados; todos podem ter sua indústria bélica, menos o Brasil? E, nessa toada, lá vai o país caminhando para o despenhadeiro, já à vista.

Não há país soberano quando se tem de sair de mansinho ao primeiro bater de pés; não há potências desarmadas.

O Brasil (ainda) reúne todos os requisitos para ser potência, população, vastidão territorial, energia, matéria-prima, riquezas naturais, e faz parte de um clube de alta tecnologia. Que tal atirarmos longe o bridão e pensarmos no futuro do país, cuidarmos que as nossas riquezas não sejam oferecidas e sugadas, que continuem a ser levadas para o exterior, drenadas até se esgotarem, até que os futuros brasileiros nada mais tenham de seu, inclusive o amor próprio, por decorrência sentimento nacional, o espírito de nação, a noção de país?

Qual dos postulantes que aí estão tem estofo para fortalecer as alianças internacionais já estabelecidas e formar novas alianças que nos permitam a busca do tempo perdido, a nossa sobrevivência como nação verdadeiramente organizada, como país soberano, a nossa realização como potência? Respondo: Nenhum! Não têm o trânsito nacional e internacional necessário para fazê-lo, a constituição multifacetada requerida pela envergadura do empreendimento, pela urgência de liderar a construção de um novo Brasil, inadiável. O que temos é a pregação de crimes contra os direitos humanos, contra a humanidade, a acumulação de grosserias, de dissimulações e nhe-nhe-nhens facilmente neutralizáveis, que não levarão a nada além de manter o país cativo de todos os interesses, menos os seus próprios, de sua gente real que vive e trabalha duro para sobreviver.

O país que não se tornar potência não sobreviverá; muitos não podem fazê-lo, nos (ainda) podemos.

Temos de nos corrigir de muitas coisas; à medida que forem ficando de fato difíceis, nem todos poderão de qualquer modo fazer parte das castas privilegiadas, nem todos poderão mudar-se para Miami, Portugal é impraticável; só de desempregados temos quase cento e quarenta por cento de sua população, só de desesperançados de conseguir trabalho, contando por baixo os seus dependentes na base de um para cada, temos praticamente um Portugal inteiro. Se contarmos os desempregados totais agregando mulher e dois filhos, critério bastante conservador, temos uma Argentina. Construir um novo Brasil não é lazer ou exercício para quem não tem o que fazer, é tarefa para brasileiros de fibra, valor e noção de obrigação, questão de sobrevivência.

O Globo de sábado último, 28 de Julho, publicou matéria de Glauce Cavalcanti com a colaboração de Emiliano Urbim sobre a qual todos deveriam ponderar, refletir: ‘Aproveite. 88% mais caro. Consumo à brasileira. Bom e barato nos EUA, programa caro por aqui, sobre Applebees. Direto do subúrbio para fantasias de luxo, sobre a lingerie Vitoria’s Secret, que nos EUA tem por público alvo as donas de casa do subúrbio. Sobre o Toyota Corolla, uma das opções mais baratas de EUA e Europa que aqui é premium e custa quase o dobro. Sobre a escova de dentes Curaprox, um bom produto sem nada de especial que aqui adquiriu status e é cultuadíssima. A matéria deveria tornar-se obrigatória nos dois últimos anos do primeiro grau, em todo o ensino médio e nos cursos universitários. É básico formar cidadãos conscientes, com boas noções de consumo e boas práticas consumeristas; isso é algo elementar na formação da cidadania pelos seus reflexos sobre toda a Sociedade, na Economia e nos destinos do país. Sem exageros. Lógico, com um país de 208 (duzentos e oito) milhões de habitantes, boa parte com mentalidade de colonizado, à sua disposição, ninguém no exterior quer que nada mude por aqui. E como está, está muito bom para os nossos maus industriais e comerciantes, a produzir e vender porcarias em termos de qualidade, a apresentar como chic o que é produto popular em seus países de origem, por elas cobrando preços ridiculamente altos, é dizer, para o exterior somos apenas um bando de selvagens seduzidos por quinquilharias que buscam ascensão social e status pela aquisição e exibição de produtos de baixa, regular ou apenas boa qualidade ou marca como se fossem de alta qualidade e padrão nos países onde fabricados e originariamente vendidos, não importa o que seja.

Em suma, de nada adianta ficar reclamando, por exemplo, dos políticos que, queira-se ou não, são avatares da Sociedade que representam; eles começarão a mudar para melhor quando essa mesma Sociedade, ela sim, tornar-se melhor do que é hoje.

ISSO É HISTÓRIA, SENHORES

Sexta-feira, 06 de Julho de 2018. Um crime contra a Informação, por extensão contra a opinião pública: “O Brasil teve 500 (quinhentos) anos para se organizar.” Ignorância ou má-fé, nas circunstâncias qualquer das duas hipóteses constitui erro grosseiro ou gravíssimo parti pris.

O Brasil apenas se fez independente em 1822. O domínio português sobre o país foi exercido com mão de ferro e crueldade, na pauta impostos e taxas extorsivos sobre tudo, enforcamentos, esquartejamentos e partes de corpos humanos exibidos publicamente. Era proibido abrir escolas, estradas, instalar indústrias, o comércio apenas podia ser praticado por portugueses, todas as riquezas e todo o ouro aqui produzidas e extraído eram carreados para Portugal.

A Corte de Pedro II era portuguesa de hábitos e costumes, ressalvada a pessoa do Imperador, que tinha muito de estadista, mas não mandava nada.

A Constituição de 1891 foi feita para os estrangeiros, uma prática nascida com o descobrimento, iniciada com a exploração sistemática, continuada no primeiro Império e organizada no segundo; o complexo de vira-latas vem de longe, tem seus motivos e continua sendo estimulado por declarações como a da temática deste texto, além de permanentes ataques e tentativas de desmoralização contra os que não são, mantenhamos o tom, yes-men, ou não dizem amém ao statu quo. Na década de 1920 os Bancos eram portugueses, o crédito naturalmente seletivo, as empresas portuguesas no Rio de Janeiro não empregavam brasileiros e aconselhavam empresas de outras nacionalidades aqui estabelecidas a fazerem o mesmo. Não foi outra a razão da Lei dos Dois Terços, a obrigação de empregar brasileiros, os donos do país, afinal, na proporção de 2/3 do total do quadro de funcionários, só vinda por obra de uma ditadura, a de Getulio Vargas, que deu ao Brasil, com a Companhia Siderúrgica Nacional, a base para asua industrialização, além de uma legislação trabalhista que acabou com o tipo de escravo que era o trabalhador empregado de então. A ditadura da década de1930, meu querido leitor, a CSN da década de1940, quando já estávamos beirando a metade do século XX. Não defendo e não pactuo com ditadura nenhuma, tenho verdadeiro horror a que pretendam me dizer o que posso ler, dizer ou escrever, como devo viver a vida que é minha; meu respeito incondicional reservo para a lei, meu norte, meu limite, formulada e promulgada em uma democracia, sob Estado de Direito. O exemplo foi dado somente para ilustrar o fato de como os brasileiros e o Brasil têm sido humilhados, sacrificados e travados pela chamada Sociedade Civil, expressão que uma cabeça limpa jamais entenderá. E tudo vem das origens, sim, com a sempiterna concordância das nossas elites, cujo sonho dourado é o de serem estrangeiras dentro do seu próprio país, forma de diferençarem-se e se manterem afastadas da população em geral, para a qual não estão nem aí. Transcrevo; qualquer semelhança com a nossa realidade atual não é mera coincidência, é prática penta-secular, isto, sim, coisa de 500 (quinhentos) anos:

“(…)

Em Minas só havia duas coisas certas: a morte e o augmento dos impostos. Até para atravessar os riachos se desembolsava uma contribuição.

Multa e percentagem: eram duas palavras que andavam pela boca dos administradores com mais frequencia que o bom-dia ou o bôa-noite na boca dos administrados. Afim de adoçar a rapinagem, teciam-se mansos euphemismos, falando-se em alfinetes para a rainha e em enxovaes de princezas. Cobrava-se até um subsidio literario, doce ironia official numa região onde não existia uma só bibliotheca publica. Havia ainda um subsidio voluntario, sendo de calcular, mesmo sem intenção humoristica, que muitos mineiros passassem carregados de ferro (agrilhoados) pelas vielas de Diamantina ou Villa Rica, por se terem recusado a pagar o tal subsidio voluntario…

Tanto onus e nenhuma compensação ao contribuinte. Nem polícia, nem estradas, nem assistencia sanitaria, nem serviço postal, ‘nada que de longe justificasse, ou pelo menos excusasse a rapina lusitana’.

Tudo era defeso, tudo era proibido ao pobre zé-pagante, ao eterno escorchado. A menor infracção aos regulamentos e aos codigos provocava ‘penas crudelissimas’. Confiscos, prisões, o desterro e não raro a morte, eis o que esperava a quantos pretendessem resistir.

Quem quer que abrisse uma nova estrada, por onde talvez se escoassem as pepitas e os crystaes destinados ao Reino, era considerado um criminoso irresgatavel.

A tudo se sobrepunha a logica irrespondivel do ferro e do fogo. As represalias administrativas autorizavam até o incêndio de arraiaes inteiros, a matança de famílias, de facções completas. Dava-se um premio a quem assassinasse um conspirador. Felippe dos Santos, condenado sem processo, foi ‘atado ás caudas de quatro cavallos bravios e arrastado e esquartejado vivo pelas ruas de Villa Rica’, morrendo ‘sem soccorros da religião, sem sepultura christã, nada!’

(...)”

[Agrippino Grieco, Introdução, XII e XIII, in Antonio Torres, As Razões da Inconfidência —A. J. Castilho, Livreiro —Rio de Janeiro —M CM XXV (1925)]

Como escrevi um outro dia, Amigo, credibilidade é como virgindade, uma vez perdida, acabou-se!

Não é difícil entender porque o Brasil é como é. E tem mais, muito mais. E pior.Nãose zanguem, envergonhem-se, isso é História, senhores!…




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CARRINHO