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  • Onair Nunes da Silva

MOMENTOS

Momentos

ADORMEÇAM OLHOS CANSADOS,

FECHEM SUAVES E TRANQUILOS…

De uma composição religiosa de Bach

As leis da física estão para o buraco negro como as leis da Economia estão para contextos de crise aguda e espraiada. Os dois conjuntos de leis não funcionam sob as condições mencionadas.

Criou-se um mantra, o de que o mundo não será o mesmo depois da grave crise de saúde atual. Depende; não será o mesmo em que sentido? Há cem anos a gripe espanhola matou cinquenta milhões de pessoas no planeta, e desde então, ele, o mundo, e seus habitantes só pioraram. E muito. Gente! A santidade nunca esteve tão distante dela.

A Economia tem várias vertentes e componentes, entre os quais destaca-se a matéria-prima A, gente, consumidores. Há um paradigma clássico, sob minha visão, que define essa questão na Economia moderna. No começo dos anos 1890 as máquinas industriais e agrícolas dos EUA produziram e colheram mais utilidades e alimentos do que a população podia usar e consumir. Armou-se um barulho, Marx pairou sobre as discussões a respeito da destinação dos excedentes de produção; houve uma forte corrente que postulou sua distribuição às camadas mais pobres da população. O capitalismo estabeleceu-se, então, em sua versão moderna e corruptora, seja, busquem-se mercado para os excedentes, não há almoço grátis; quem quiser comer tem de pagar pelo que consumir, produzido à custa de capitais e trabalho alheio.


Os EUA invadiram o mercado internacional, que tinha donos desde há muito estabelecidos. Sem lugar à mesa, foram empurrando cadeiras para o lado e passaram a ocupar espaços, para isso cooptando colaboradores locais em geral pertencentes à classe média.


Propaganda, marketing, modo de vida eram as ferramentas utilizadas, o american way of life foi elevado à categoria de paraíso na Terra; vivam como nós, era a mensagem implícita em sua propaganda, usem os nossos produtos e assimilem nossa cultura. Bom, isso tem um preço, e eles o pagaram! Com o passar do tempo a América passou à frente dos antigos donos, conquistando, além de consumidores, defensores mundo afora. Sua Economia iniciou um período de crescimento acelerado.

As reformas trabalhista e previdenciária constituíram-se uma bela forma de empobrecer os trabalhadores brasileiros; o teto de gastos, uma distorção do teto para endividamento, fez a sua parte para travar o Brasil. A quantidade de consumidores encolheu, os empregos não foram recuperados. Quanto ao trabalho, a perspectiva indutiva é a de que aumente o desemprego; na marca de onze milhões e novecentos mil antes do vírus, a tendência natural de sua curva é para cima. O que será da Economia brasileira após a crise de saúde que assola o país? Não será. O rombo nas contas federais, com todos os seus perversos reflexos, aumentará; pelos padrões

vigentes nos restará da atual crise um déficit crescente; os consumidores no Brasil minguarão, no exterior também, considerando a globalização do problema.


Não existe meio de equilibrar com segurança uma Economia, especialmente quanto ao aspecto ‘emprego’, sem investimento público; face à nossa grave carência de mão de obra qualificada, não somos capazes de crescer economicamente de modo sustentável; nosso estoque de infraestrutura vem baixando continuamente, ano após ano, não temos tido recursos sequer para a manutenção do que existe, vamos continuar minguando nesse quesito.


Nossas cabeças econômicas estão na caixa, não conseguem adaptar-se aos novos tempos e às nossas necessidades. São monstruosos os desafios à nossa frente.

Mônica De Bolle fascina pela competência e pela agilidade de raciocínio, não fora ela a Pesquisadora-Chefe do Departamento de Economia da Johns Hopkins, posição a que ninguém chega por acaso. Desde que o autorize, a entrevista por ela anteontem, segunda-feira, 20, concedida ao Roda Viva, deveria ser exibida em todo o país, em Faculdades de Economia, Associações de Classe, Empresas, Seminários, no Congresso, em todo e qualquer lugar aberto a uma visão revista e abrangente da nossa perspectiva econômica. Sua dicção trouxe a espinha dorsal de um programa econômico, da postura a ser adotada no correr da presente crise da Saúde e de como conduzir a Economia no pós-crise. Afora o case sensitive de proteger e salvar vidas humanas, que, naturalmente, tem de ser priorizado sobre o que quer seja, o Brasil precisa salvar os seus consumidores. Assim como não há Economia forte sem investimentos públicos dirigidos, não existe desenvolvimento econômico sustentado sem um mercado consumidor interno forte, que não se forma com desemprego maciço e salários miseráveis. Assistam e ouçam a Sra. De Bolle; quem tiver ouvidos para ouvir e souber puxar o fio da meada por ela exposto poderá fazer na área econômica brasileira um grande trabalho, simples, direto, realista e sem fru-frus, coisa de gente competente. E profissional.


O ex-ministro da Saúde, indisfarçável crítico às vésperas de deixar o cargo, praticou um ato falho — não me lembro exatamente as palavras, mas o sentido foi esse: É absurdo fixar 90% das importações em apenas um país. E mais não disse sobre o assunto. A Sra. De Bolle disse sobre a China em visão analítica, concisa e precisa a propósito dos rumos da Economia chinesa e arrematou: Certamente os países importadores dos produtos chineses farão uma revisão de suas importações do país. Não terão sido precisamente essas as palavras, mas o sentido do que disse foi nem mais nem menos este.

Os nossos mestres nos ensinaram que é melhor saber ouvir do que saber falar; a vida me ensinou que há momentos de ouvir e há momentos de falar, e tem-se de estar preparado para isso quando o momento chegar

1 — Importar as máscaras exigidas nas circunstâncias atuais é ridículo. As senhoras brasileiras podem-nas produzir rapidamente em qualquer quantidade; senão elas, as nossas pequenas empresas de facção ou confecção. E além do mais serão pagas em Reais, não em dólares, a preços certamente compensadores. Muitas das nossas patrícias estão sem emprego, sem trabalho, e as nossas pequenas empresas sem negócios.

2 — Importar respiradores a sessenta mil Reais a unidade também não faz sentido, especialmente quando temos de implorar por fornecimentos que demorarão a ser feitos devido à alta demanda. Ademais de serem complicados de operar, são caros e pagos em dólar. Protótipos de respiradores projetados no Brasil têm sido exibidos na televisão, astronomicamente mais baratos do que os importados e comprovadamente eficientes, simples e fáceis de operar, o que tem sido reclamado pelo pessoal que os opera.

Qual é o mistério a envolver essas importações?

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