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  • Onair Nunes da Silva

"TOCAR NÃO. É MUITO RUIM!

Jair Amorim, em parcerias com José Maria de Abreu e Alberto Ribeiro, compôs músicas que marcaram época. Um misto de compositor e radialista, tinha um programa aos domingos na Rádio Tamoio, dos Diários Associados. 9 horas da noite, e lá estava ele apresentando a Parada de Sucessos da semana, num tempo em que o gaúcho Teixeirinha varou o país com sua voz esquisita, se comparada com a dos outros cantores de sucesso, sua plataforma uma música apelidada de Churrasquinho de Mãe, um horror que fez um sucesso incrível. Amorim, é claro, sempre estava nas paradas. No momento em que tinha de apresentar o primeiro lugar, o que lhe aparecia semana após semana? Churrasquinho de Mãe. Bem, após a segunda colocada, dizia: Senhoras e senhores ouvintes, o primeiro lugar da semana é de Churrasquinho de Mãe — ele dizia o nome correto da música —, mas eu me recuso a apresenta-la. Boa noite, obrigado pela audiência, até o próximo domingo. E encerrava o programa.

Anda dando vontade de fazer como o Jair Amorim. É permanente a sensação de naufrágio. “O mar chegou, tudo apagou, palavras leva o mar”, Amorim foi divinamente gravado por Elizete Cardoso que, esquecida quando já não dava frutos, ficou 5 anos sem gravar, período antecedente à sua morte em que mais precisou de reconhecimento e calor humano. É cruel, mas é assim, acabou a razão do interesse, dinheiro, projeção social, profissional, os cambaus de todo tipo, acabou o amor.

Veja só: O ministro chegou, abraçou o mundo com as pernas, quis tudo para ele, deram, mas ele nunca conseguiu o sucesso que julgava poder produzir; falou grosso, engrossou a voz, brandiu suas credenciais acadêmicas e … Nada! Está como técnico de futebol, prestigiado, o diretor falou. Sempre foi assim, o melhor caminho para o desemprego. Técnico de futebol prestigiado sempre foi sinônimo de técnico de futebol desempregado após devidamente fritado. Os astros do time saíram, mudaram de clube e de ares ou voltaram para os antigos clubes, porque, olha, acabou a possibilidade de prestígio, acabou o amor. Dá seu jeito, chefe, fui!!!

O primeiro mandatário do Clube, de seu turno, é pelo menos coerente; faz nestes tempos bicudos o que sempre fez, livrar-se de potenciais concorrentes. Chega-se a pensar que o Brasil é o único país do mundo no qual, logo no início do mandato, o eleito, prioritariamente, passa a cuidar da sua reeleição, faz festivais de dinheiro, de cargos, as atitudes são paternalistas, segue a linha populista porquê, é da estrutura do seu raciocínio, pobre gosta de ser enganado, só presta para votar. E é o pobre que elege o presidente porque a base da pirâmide é desmedidamente maior do que os demais segmentos. Rico só presta para eleger vereador, deputado, senador, e, olhe lá, governador. Me aguarde, pensa; vocês estão achando este meu primeiro mandato horrível? Esperem pelo segundo, vocês verão. Palavras do guru.

E aquele homem de aparência patriarcal, ou jeito de irmão mais velho, todo encanecido, uma senhora história de vida, tentando salvar o fim de noite. Tudo em compasso de ramerrão, a história repetitiva, a notícia batida e rebatida não desperta interesse, está todo mundo cansado das novidades que já não o são, o cochilo invencível ao ouvi-las.

E aquele senhor, empresário, perdendo velozmente os cabelos, que mesmo os empresários têm os seus limites, 17 milhões de desempregados, mais os 5 ou mais milhões que já nem emprego procuram, mais os subempregados, mais as moças desesperadas por trabalho a entregar as “marmitas” do iFood de bicicleta para ganhar algum dinheiro honestamente, tudo se desmanchando. Imagine toda essa gente na rua, direitinho, mudinha, em ordem, carregando cartazes a dizer “Não queremos esmolas, queremos trabalho”. Por que não o fazem? Porque disseram aí que os interessados infiltrariam baderneiros em seu meio, que fariam quebra-quebras, e a polícia cairia em cima com tudo, prenderia, os cambaus! Ora, o que é isso? Basta ficarem atentos; ao primeiro sinal de tumulto afastem-se rapidamente e se coloquem bem longe. E aí? Sei lá! Seria ilustrativo ver como a policia os trataria.

Pelo menos tem-se o respeito de uns poucos; segunda-feira, anteontem à noite, o trio da bancada, elegante e expressivo, fez o que pôde, aquele senhor de solenes barbas brancas que explica o mundo e a vida para as pessoas, a função do filósofo, aparentemente exasperado com o besteirol galopante, que besteirol não se explica. Se o Sérgio Rangel Porto, irmão do Marcelo Carlos, ainda estivesse por aqui estaria deitando e rolando. E mais, se eu fosse chegado a gurus, o senhor de barbas brancas solenes seria o meu guru. Ele tem estilo, sabe das coisas, é franco e direto, não enrola. Bacana, bacanas os três, as duas senhoras, cada qual em sua função, competentes, na ‘simplicidade abrangente’ da Doutora a luz sempre necessária e bem-vinda, no tailleur da apresentadora, de listras discretas, o sóbrio bom gosto. Ou era um conjunto, ou um tailleur-pantalon? Que bom vocês três!

E aquela senhora também de fim de noite, o modo pessoal de noticiar, a inteligência estampada em sua expressão pouco comum, extremamente profissional, uma presença marcantemente agradável em meio ao pandemônio do noticiário. E a repórter, “Gighia” Telles, que, mesmo mascarada, sublinha sua presença, danada de competente e expressiva, ainda o jeito quieto, sem espalhafatos. Ajuda muito a dar um pouco de graça ao que ocorre, ao que não tem graça nenhuma.


Estamos todos tentando nos salvar do naufrágio, começando pela nossa saúde mental, que temos conseguido preservar a despeito do confinamento prolongado e da tragédia desumana que nos tem sido imposta, e quando a loucura de nuances diversas já se instalou ou ronda tanta gente. Mas, fazer o quê? Estes são tempos loucos. No fundo, no fundo, dá vontade de fazer o que fazia Jair Amorim, encerrar o programa sem “tocar” o primeiro lugar. Mesmo reconhecendo que ele está lá, “tocar” não. É muito ruim!

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