CERTEZA, CONVICÇÃO, CONVENCIMENTO E CONVENIÊNCIA


CERTEZA O que é categórico, não padece de dúvida. CONVICÇÃO Crença ou opinião firme baseada em razões íntimas ou na observação e na experiência. CONVENCIMENTO Produto da influência ou persuasão de terceiros.

CONVENIÊNCIA Interesse ou vantagem material, social ou de qualquer outra natureza; aquilo que satisfaz necessidades.

São proposições. O seu desenvolvimento dá um Tratado, mas o propósito, aqui, é sugerir reflexões. Hoje é um dia vital para o Brasil-País e para o Brasil-Nação; o Senado estará decidindo sobre a certeza do “Tem que manter isso, viu?” Por que certeza? Porque circunstâncias, interlocutores e objeto da conversa estão registrados, compreendendo matéria certa e sabida. Então só há um caminho! É, só que poderá laborar não apenas o óbvio; o clima real, para boa parte dos Senadores, pode até ser de convicção e/ou convencimento, mas o quesito conveniência está agressivamente presente.

Há fato novo, de extrema gravidade, a questão do trabalho escravo, uma vergonheira barrada preventivamente pelo Supremo Tribunal Federal. Aquele denunciado disse que nada tem a ver com os ruralistas, o titular da Agricultura, também um enleado, disse que, sim, trata-se de atendê-los, é dizer, atender à demanda dos novos senhores de engenho de manutenção dos trabalhadores submetidos à sua vontade e caprichos, dispensando-os da proteção da lei. Afinal, para tais senhores, são apenas semoventes.

O assunto, por todas as razões éticas, morais e legais exige um posicionamento criterioso, não é de decidir-se quanto àquela maravilhosa mousse de maracujá — 'de la mousse au maracujá' —, se deve ser servida na sobremesa do almoço ou ficar para o lanche da tarde, junto com aquele excelente queijo da Serra da Canastra. É sério demais, todos precisam refletir a respeito da coisa em si, mas, e sobretudo, colocar no escaninho devido os autores de tamanhas indecências, de sobejo cogitando sobre uma ação profilática para responder plenamente à certeza do Brasil-País e do Brasil- Nação.

António Pereira de Carvalho é meu amigo no Facebook. Transcrevo abaixo uma sua manifestação a teor de dicção de Guerra Junqueiro — Abílio Manuel, político, jornalista, escritor e poeta português nascido em 17 de Setembro de 1850 em Freixo de Espada à Cinta e falecido em Lisboa em 07 de Julho de 1923 —, autor, entre outras obras, de A Velhice do Padre Eterno, bastante conhecida e lida aqui no Brasil. Antes de posicionar-se, leia com atenção o que ele, de seu turno, transcreveu. Leia também, aqui no blog, meu artigo “O Grande Outro e as Urnas”, publicado em 10 (dez) de Julho último. Firme sua posição e aja segundo sua consciência.

Normalmente, curto integralmente o que escreve o António; no caso do Brasil e na hipótese corrente, como de resto em qualquer hipótese, apenas não acho devamos caminhar em sentido contrário a qualquer norma legal. O que quer se faça, deve sê- lo nos estritos limites da lei, sem concessões à sua ruptura, menor seja.

[Recordando Guerra Junqueiro, 121 anos depois... No ESSENCIAL, o que mudou?

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

in "Pátria" (1896) Guerra Junqueiro

(17.9.1850, Freixo de Espada à Cinta - 7.7.1923, Lisboa) 72 anos]

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