ARREMATANDO, EXPLICO:

Por ilação inconsistente, concluir-se-ia que o panorama descortinado resulta da aplicação moderna empresarial e administrativa de Sun Tzu, um conhecimento ordinariamente exibido como indicador de superioridade, ilusória, se decorrente da compreensão apenas literal, sem o domínio das filosofias chinesas representativas, entre elas o I Ching, de A Arte da Guerra. Os Treze Capítulos assentam os seus aforismos na figura de um general cuja forma de operar privilegia o segredo, a simulação e a surpresa, princípios relativos que não dispensam a essencialidade da força moral e intelectual sob a condição precípua de que o general sábio nunca é manipulado, e que o comandante de arte e valor sempre pondera a situação antes de se movimentar.

O generalato não é produto natural do decurso do tempo. A formação e os primeiros degraus da carreira são de encaminhamento do talento, que se vai revelando paulatinamente. As nuances se transmudam, não são as mesmas para todos, é o talento para ele que o coloca em perspectiva sob laivos da sabedoria que coroa a excelência pessoal desenvolvida dramaticamente; o grande estrategista é fruto da sabedoria, da percepção incomum dos detalhes e um quase perfeito senso de adequação de ações, guiada pela ampla e sólida cultura, em seu cabedal a cultura humanística e a sensibilidade perceptiva ou timing.

O grande comandante não quer a guerra; suas grandes vitórias estão nas batalhas evitadas, não nas batalhas vencidas ao custo de vidas humanas, reputações e desmanche social e político.

O panorama geral tem o pior de Sun Tzu, um xadrez mal jogado que não contempla as ações racionais, privilegia a dissimulação, o segredo e a surpresa grosseira mais para a traição de princípios do que para a nobreza do combatente educado e culto que jamais procura induzir acordos com manifestações hostis, nunca tenta punir dissidentes ou chantagear os relutantes; a verdadeira filosofia do combate é tão honesta quanto a filosofia do combatente que em nenhum momento quer transformar a Sociedade de seu dever proteger em nome de um céu para o qual o homem não-elite nada mais é do que peça de um jogo viciado, cujo bem-estar decididamente não preocupa, é antes um estorvo que deve ser eliminado de modo indireto, não é parte da solução, o centro do tabuleiro disputado com artimanhas, não com o justo conhecimento, impossível bloquear o Rei, contrário e ameaçador, que, embora no jogo, dele não participa diretamente pelo emprego da discrição e da experiência, movendo-se pelos espaços vazios, forças concorrentes optantes pelo cerco estratégico estendendo sua malha em torno de enxadristas agressivos e intempestivos, de movimentos impróprios e nenhuma noção de oportunidade.

Nicolau Maquiavel também produziu a sua arte da guerra, assim mesmo, toda em minúsculas, a arte de conquistar, manter e exercer o poder sem escrúpulos, ética ou moral, um texto menor se comparado com a genuína contribuição de A Arte da Guerra, seja, a filosofia produzida pelos grandes sábios e pensadores chineses desiludidos e cansados das batalhas sangrentas e destrutivas entre os Estados Guerreiros, marca primeira da formação da nação chinesa. O grande estrategista não divide para governar, a suprema grosseria que trai o pavilhão de todo um povo, pois mantém a turbulência e o desencanto social; ele une, ele congrega porque sabe definir objetivos comuns e tem cultura e talento bastantes para demonstrar conclusivamente a própria excelência, ao invés de utilizar largamente o segredo, a simulação e a surpresa para o fim do domínio puro e simples, sem talento e de finalidade estranha aos interesses gerais.

O panorama descortinado atrai wei qi para realizar o mais nobre dos aforismos de A Arte da Guerra:

A suprema excelência não está em vencer as batalhas, mas em derrotar o oponente sem combater. A mais elevada forma de disputar-lhe o poder ou elidir a sua ação desonesta e nefasta é ataca-lo em suas estratégias, em suas alianças; a mais baixa forma de disputa é cercar e atacar fisicamente cidades e destruí-las, cidades, na conceituação moderna de Sun Tzu, convoladas Indivíduos, Corporações e Governos.

Wei qi, o jogo das inteligências privilegiadas, não quer o confronto direto, a violência, preconiza o cerco estratégico, não-físico, mediante o qual o oponente se estiola por sua incapacidade intelectual, cultural e de alta estratégia, em suas movimentações primárias e pela falta de treinamento adequado, cerco tal cujos executores não necessitam estar em contato direto, encontram-se e compreendem-se nos altos níveis de consciência, inacessíveis aos enxadristas ansiosos e intempestivos, de movimentos impróprios e nenhuma noção de oportunidade.

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