POSSIBILIDADES & PROBABILIDADES

POSSIBILIDADES E PROBABILIDADES

O Brasil está em face de si mesmo, dos seus problemas, que não são pequenos. Não há o que esperar de ninguém, de nada. Os problemas são seus e ele terá de resolvê-los.

Não há questões insolúveis, tudo dependendo apenas do modo como são equacionadas, planejadas e implementadas as soluções, inarredável que tudo se faça com absoluto respeito à ordem democrática. Não há milagres possíveis, necessários muita competência, muito trabalho, muita disposição, muita cooperação e muito diálogo.

Beira a impossibilidade combater o vírus num país onde metade da população — 110 milhões de pessoas — não tem saneamento básico, onde esgotos correm a céu aberto e rios, córregos e valões exalam um pavoroso odor de excremento e morte; onde seres humanos vivem amontoados em favelas sem a presença efetiva do Estado, nos últimos tempos glamourosamente rotuladas de comunidades, que impedem o isolamento social indispensável pela proximidade assustadora entre infectados assintomáticos e habitantes ainda não contaminados, que não têm como escapar ao contato direto, habitantes esses que estão nos ônibus, nos trens, nos bares, nas esquinas, em muitos locais de trabalho e diversão, a parte pior, decisiva, mais desumana e heróica ficando para o pessoal da Saúde e a parte humanitária para empresas e indivíduos anônimos que com ações admiráveis minoram o sofrimento e a desassistência dos atingidos pelo vírus. Não à toa, o Brasil está tão mal ranqueado no cômputo geral das morte causadas pela pandemia.

A Economia brasileira está estraçalhada desde antes do vírus, agora está um caos, indústria à beira da inexpressividade abrindo caminho para o sonho dourado e antigo de quem, que de brasileiro tem apenas a certidão de nascimento, quer ver o país como simples exportador de commodities, esterilizado e incapaz de se projetar internacionalmente de forma positiva e sustentada. É exercício de futurologia desavisada fazer projeções do seu PIB neste ano de 2020; não há qualquer base ou fundamento seguro para tais projeções. Pode-se esperar, por triviais expectativas, mesmo mantendo o senso de realidade, que a queda do Produto Interno entrará na casa dos dois dígitos, e, ainda, que não se limitará a tangenciar a dezena redonda, mas a ultrapassará.

Não se tome a Economia internacional por parâmetro, como não se pode fazê-lo quanto ao covid. Os europeus, sempre a melhor referência, têm um sistema de saúde que não está permanentemente sobrecarregado como o do Brasil devido à falta de infraestrutura específica e adequada, e cujas condições de higiene há muito tempo estão longe das quase medievais condições de higiene de significativa parcela da nossa população. A Economia europeia tem fundamentos sólidos e alto padrão tecnológico; no momento em que o vírus der uma brecha a recuperação será firme, ao contrário das condições da Economia brasileira, que se ressentirá, inclusive, de um ponto de partida, descomposta como está e já estava antes do vírus.

Não se conte, pois, com o panorama internacional, até porque não gozamos, hoje, de muita estima e credibilidade. De outro modo, não há ilusão possível quanto à recuperação da Bolsa, ela nada tem a ver com a Economia real, é um lugar, apenas, de locar capitais sedentos de multiplicação, que nos tempos atuais não têm caminhos abertos, amplos, como é do seu apetite. Economias com números aceitáveis, observados os padrões e condições locais, só no leste da Ásia e na África subsaariana,

justamente por não dependerem do comércio internacional e na qual o Brasil, com suas manias de

grandeza, jamais investiu num trabalho planejado de longo prazo. A China vai navegar em possível, difícil dizer provável, 1% (hum por cento) de crescimento, algo impensável há um ano. Por aqui, Junho e Julho nos trarão quase certamente acentuado aumento na taxa de desemprego; 15 milhões é uma figura provável, com uma expressão possível que pode desbordar dessa marca. Não tenhamos ilusões.

Enfim, um pouco de paz, bom momento para nos planejarmos, coisa para quem é do ramo. Quando a mata é densa e o cipoal fechado é que se tem de mostrar o quanto se vale. Sem espaço para retóricas, cumpre-nos a todos, sem exceção, abrir caminhos, sem nos esquecermos por um único minuto que não podemos perder de vista a constitucionalidade, a legalidade e os bons costumes em nossos atos e atitudes. Nossas Instituições estão firmes e operantes, vida longa para elas.

Viabilizar o Brasil é problema de cada um de nós; vamos, pois, à luta.

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