ECOS


LIVRO V

A CONSPIRAÇÃO

Onair Nunes - A Conspiração dos Medíocres - Trechos

[...]

O homem de caráter firme assombra essa criatura mimética, incapaz de compreender a indeclinabilidade dos princípios morais e éticos, por ela simplesmente abolidos se não lhe favorecem. Antagoniza-a quem não encampa seu desdém por tais princípios, antes os privilegia incondicionalmente, pendor natural do ser humano bem formado, malvisto quando contraria interesses, algo muito grave em algumas tribos, pecha da qual, porém, se absolve, per se, aquele a quem o medíocre tem em geral por anacrônico persecutor de quimeras, por incapaz de identificar nesse homem o gen do aperfeiçoamento humano. Sua estreita visão não lhe concede perceber a existência de quem não necessita de sua aprovação e aceitação, o tipo de pessoa, para ele incompreensível, que haure força interior no circunscrito universo de seus iguais, onde não busca conforto ou solidariedade, mas o brioso ombrear de indivíduos desassombrados, categoria de homens cuja vida de honradez é modelo de distanciamento do vulgar, do que possa exalar senso comum, do mediano.

[...]. Esse degenerado apenas se guia pela verdade se dela é beneficiário; não estando em jogo interesses pessoais ou de seu grupo, a ela é por todos os modos indiferente. Encantado com a própria mediocridade, lastro de sua alma envenenada, é totalmente alheio aos limites. Seus bens materiais não contam; uma pobre criatura a despeito das mercês de que goze, é um indigente moral em geral confrontado pelo olhar firme, tranquilo, e pela serena dignidade do homem de caráter, que lhe repercutem acusadores e abalam sua natureza pervertida. Rendido ao fato de que jamais o igualará, apoucado de virtudes, conspira, velhaco, para desmerecê-lo, reduzi-lo à ínfima dimensão de sua estatura ético/moral movido pela mórbida inveja de algo para ele indefinível, mas que o faz menor, em especial a só elegância de ser que a entranhada e detestável vulgaridade que o define não consegue assimilar. Daí maledicências disparadas a esmo para gáudio das nulidades das quais é arauto e modelo, fazendo dos ecos de sua pobre mente aprisionada no mais remoto estágio da ancestralidade o aríete com que arremete contra a honra do seu verdugo existencial, indiferente, não por distingui-lo com avaliações negativas, mas, e porque, em elevado patamar evolutivo, mal lhe percebe a existência.

São essencialmente seus a dor pelo talento alheio, o ressentimento pelo êxito dos demais, a frustração pela virtude, que o incomoda, a cobiça, o cochicho maldizente, a ritualização e o culto do poder, o ódio frio, a violência calculada, sub-reptícia, a vaidade, a inveja, ao mesmo tempo em que menoscaba o perdão, o amor, a delicadeza de hábitos, a generosidade; rudimento e desgraçada expressão de um ramo humano subalterno, ele tipifica a categoria degenerada de indivíduos que constitui as camadas primitivas das sociedades humanas. Operado pelos códigos hipotalâmicos do instinto, pressupostos da selvageria, brutal e primário em sua visão de mundo, esse lamentável esboço existencial travestido de ente civilizado e desatento da humanização em sua plenitude é uma infausta criatura da sombra protegida, vezes até, por aparente respeitabilidade, tornando-o mais perigoso; um decaído genealógico a chafurdar seu nanismo ético/moral na promíscua e insalubre atmosfera de sua tribo, é um tipo social deplorável que conspira compulsivamente contra tudo e todos em que ou em quem não identifique sua índole primária a enlear em perfídia os retos, aqueles cujo alheamento aos seus padrões, cuja grandeza pessoal, e mesmo o simples fato de existirem, o fazem ainda pior, realçam sua fealdade interior consectária de sua indignidade. Um eunuco do amor, ele o ridiculariza, agredido, como se homem e mulher, na ternura de sua entrega, das mais belas manifestações humanas, o esbofeteassem em sua grotesca insensibilidade. [...]


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