A SERIEDADE DO OFÍCIO

Para que um indivíduo possa ser um bom novelista, é preciso que faça cem ou mais projetos de novela, nenhum com mais de duas páginas, contudo, de uma clareza tal que, neles, cada palavra seja indispensável (Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, aforismo A Seriedade do Ofício)


1. Gera expectativa o preenchimento da vaga aberta com a saída antecipada do Ministro Celso. Preenchê-la significa estar à altura do Magistrado de altíssimo coturno que se retira, missão para um gigante do saber constitucional/jurídico/ Normativo, havendo de serem preenchidas, também, suas qualidades de humanista e legalista ferrenho, severo, porém de postura cortês e amável.

2. Anteontem, devidamente acompanhado a distância razoável, o titular do blog se expôs deliberadamente a pretexto da compra de itens dos quais, de fato, pode prescindir. Tudo registrado, o saldo é preocupante do ponto de vista das franquias constitucionais, do Código do Consumidor e da noção de mercado, tudo isso regado com péssimo atendimento e absoluta falta de cortesia.

A ser verdadeiro o resultado do shopping, Americanas com entrada apenas pela Visconde de Uruguai incluída e passagem por banco oficial na Amaral Peixoto, em Niterói, RJ, do lado de cá da ponte, uma cidade de cerca de 500 (quinhentos) mil habitantes, a quase um quarto do século 21não se encontra para comprar uma simples e pequena jarra de vidro refratário que possa ser levada ao fogo. Num dos locais consultados o vendedor informou com ar solene ao comprador aqui que tal espécie de produto não é mais fabricada. Um horror completo.

3. Anteontem, terça-feira, à noite, um momento memorável. Na bancada, dois senhores, um de ciência, o outro, empresário, dois pesos-pesados, duas figuras respeitáveis, dessas, de brasileiros, que gostaríamos de encontrar amiúde.

Do lado de cá da tela, a mais genuína manifestação de júbilo, o mais espontâneo riso de cumplicidade, a melhor cumplicidade, a sublime cumplicidade adornada com o mais profundo respeito, que poupa vidas humanas.

Qualquer um que sai do seu Estado natal, vai para São Paulo e lá se realiza pessoal e profissionalmente nas áreas de sua educação formal e especialização informa-se de duas realidades existenciais inafastáveis: Não volta para o seu Estado de origem ou, se volta, não se reinveste de suas características culturais pré-São Paulo.

Os países ou regiões de definição predominantemente imigrante têm em geral uma força incomum. Ao deixar sua gente, seus campos e esquinas de infância e adolescência para estabelecer-se onde tudo lhe é estranho, às vezes hostil, quem traz em si forças determinantes geradas em seu “núcleo” não se foca em outra coisa além de realizar-se no ritmo do potencial encontrado e naquilo mais essencialmente seu, preparando-se e preparando o caminho a ser feito a partir de aspirações próprias nascidas da vocação para o trabalho somadas à seriedade e ao profissionalismo temperados com a melhor formação cultural e técnica, desenvolvendo ao longo dos anos habilidades que formam um amplo cabedal de conhecimentos, talento, competência e experiência. Ninguém deixa sua aldeia para nada fazer juntamente com os desocupados do seu lugar de destino. Viver em ramerrão, vive-se nos lugares de origem.

São Paulo é um Estado de imigrantes, sua força e vigor não são produtos do acaso. É essa força e vigor que molda a habilidade para as avaliações críticas, treinado que se é na visão conjunta de situações difíceis. Assim, quando o doucement sur des roulettes já não rola, entra a capacidade de ver organicamente a floresta, é dizer, além das árvores, de equacionar com propriedade os problemas emergentes, de replanejar eficientemente e elaborar programas, orçamentos, planos de ação e rotinas de trabalho para alcançamento de objetivos e metas definidos no curso de análises realistas e competentes. Nós sabemos do que estamos falando, fomos por largo período “imigrantes” em São Paulo.

Não foi difícil, pois, capacitarmo-nos, a par do acompanhamento do trabalho desenvolvido, de que o Instituto Butantan sairia com a vacina contra o coronavírus ainda este ano. Claro, imprevistos podem acontecer, mas sempre haverá um plano B, cuidado de todo bom planejador. É deles que também estamos falando. O trabalho dans des délais très courts (eu avisei sobre o francês, lembra?) está praticamente realizado e a operacionalização do seu resultado em vias de implementação. Novembro está muito próximo, Dezembro é logo ali.

Quem viveu ou vive, trabalhou ou trabalha duro e se realizou ou realiza profissional e pessoalmente em São Paulo conhece intimamente essa sensação; é difícil controlar a satisfação a cada vez que essa tremenda cidade, continuamente reconstruída pelos que nela se estabeleceram, além dos seus naturais, sai na frente. É isso o que está acontecendo.

Na primeira pessoa, meu respeito, o Brasil agradece.

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Hervé, quando escrevi Cornwallis e sua força naval, estava significando unidades da esquadra inglesa que protegiam sua retaguarda. Rochambeau, claro, também estava lá com os seus soldados, em número bem maior do que eram os soldados de Washington. O almirante de Grasse é menção indispensável quando se fala na Guerra da Independência dos EUA e eu referi apenas La Fayette (esta a grafia correta do seu título de marquês, Marie-Joseph seu nome pessoal, do Castelo de Chavagnac, na Haute-Loire) por haver se tornado para os americanos o mais ilustre comandante francês em sua libertação do jugo inglês. Além de competente, sabe como é, tinha o discreto charme da nobreza.

(Nota ao artigo de 25 de Janeiro de 2012 - de Tocqueville, O individualismo, Prosseguir é Preciso)

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