DE FANTASMAS, DE ANJOS E DE ROSAS

— Está tudo tão confuso...Não sei o que dizer.

— Não digas, cale! — Não sei por onde começar.

— Experimente começar do começo.

— Teria de voltar no tempo, nem assim tão distante, trazer de volta o que ficou no fundo das almas, esquecido. — Falas do nosso amor? — Como poderia? Não há mais amor.

— Entre nós? — Entre todos. — Estás significando partidas, tua partida? — Às vezes afago a ideia, choram-me, contudo, as entranhas ao pensa-la. Sangram-me. — Não me queres mais a mim? Te seria, pois, fácil partir? — Te quero, te hei de sempre querer. — Fala-me do teu querer, dos desejos que te embalam os sonhos. — Na verdade, nada desejo além de deixar-me ficar a mirar-te pura e nua de ti mesma, de tuas loucuras, meus encantos. — Por quê, então, simplesmente não te deixas ficar, sem pensar, sem nada querer além do que queres e desejas? — Não posso. — Podes, se queres. — Não viste, não ouviste o fim dos segredos? — Entendi? — Não, se não quiseste entender. As decisões. As oportunidades de acerto têm correspondência nas possibilidades de fracasso; o que disso passar é puro radicalismo com toda a sua carga de impropriedades, um ou uns poucos que decidem pelo instinto e muitos que precisam de guias para por eles ‘pensar’. Para generalizar, chame ao ato das iniciativas uma tomada de consciência, mas, lembre-se, consciência só se forma quando se está pleno de humanidade, que por sua vez a induz de modo permanente. Aí o problema das radicalizações; paga-se um preço pela tomada de consciência e esse preço tem nome e valor, insegurança. Quem tem real poder de decisão decide sozinho ao sabor de toda a insegurança que lhe vai impressa no ânimo, que lhe é característica, ser humano que é, na hipótese de despreparo colossais possibilidades de desacerto e erro total. É preciso muito cuidado com os radicais de todas as nuances. Desconfie sempre daqueles que só aceitam o “sim” como resposta, que apenas recepcionam completo alinhamento com os seus princípios e ideias. Só existe uma verdade, aquela que decorre rigorosamente do fato concreto, sem maquiagem, sem sofismas.

— Não sei, estou confusa. Eu estava em vigília quando soaram as doze badaladas noturnas...

— Ele surgiu, encantador,para roubar-te a alma, não? Te acenou, seduziu-te... — Aproximei-me, tão só; tem cheiro de morte. — Aclara-te, vivemos um entardecer, o tempo da noite, longa, angustiante, está em gestação. — Que faremos, que farás? — Busco o mínimo da delicadeza com que deve a vida ser vivida; a desordem e o desprezo pela ordem regular das coisas são anti-naturais, tortuosos, anormais. Já temos as cores do caos a nos toldarem o horizonte. — O meu amor, não tem ele a delicadeza que buscas? — Mais que isso, purifica-me, me redime da minha humanidade, mas vejo-te distante, uma imagem, como a ordem da qual necessito para alcançar a plena inteligibilidade na pluralidade humana. Você me completa, mas eu só me realizo na ordem das coisas.

— Dê-me o teu sinal e me abandonarei em ti, em quem me quero repousar. — E o fantasma? — Anjos de grandes asas brancas ruflaram-nas; são mensageiros meridianos, numa das mãos trazem o raio, na outra as tábuas da lei. O raio, já o atiraram. E quanto a ti? — Permanecerei. De ti, não farei como Hamlet, não seguirei o fantasma.

— Tens uma boa razão para permaneceres? Se não, serás infeliz.

— Sim, minha alma, não a quero perder.

— E o que é da tua alma?

— Tenho-a nos olhos. Te quero a mim... —Teu olhar me queima. Enlouqueço. Me quero a ti...

— Te amo. — Te amo.



©onair nunes da silva



de fantasmas, de anjos e de rosas — Revisto



publicado originariamente em onairnunesblog.com



em 27 de março de 2019

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