MUTAÇÕES


A QUELA VELHA GELADEIRA, A PRIMEIRA, FAZ TANTO TEMPO, COMPRADA A PRESTAÇÕES PARA O CASAMENTO; AQUELE BULE DE CAFÉ, DE ÁGATA, COMPRADO QUANDO VOCÊS TINHAM APENAS DUAS XÍCARAS, PUXA, VOCÊS FICARAM TÃO FELIZES! SÃO LEMBRANÇAS TÃO VALIOSAS, TÃO CARAS, EMBORA TÃO SINGELAS, VOCÊS TRAVARAM UMA LUTA QUASE DESIGUAL CONTRA A VIDA PARA FICAREM JUNTOS, AMAVAM-SE TANTO! DEPOIS PROGREDIRAM, VIERAM A CASA CONFORTÁVEL, O CARRO ELEGANTE, DE MARCA, A GELADEIRA DE ESTILO, AÇO INOXIDÁVEL, TANTA COISA BONITA. AINDA SE AMAM, TANTO TEMPO PASSADO, MAS NÃO SÃO FELIZES. QUEREMOS O NOSSO PAÍS DE VOLTA, ANSEIAM, MAS, TÃO DISTANTE, UM SONHO IMPOSSÍVEL, PARECE-LHES.


ONDE ESTÁ A FELICIDADE SENÃO NO NOSSO PAÍS, O OUTRO, AQUELE EM QUE VIVÍAMOS, NÃO NESSE EM QUE O TRANSFORMARAM, TÃO FEIO, TÃO DESCONJUNTADO, FREQUENTEMENTE TÃO RIDÍCULO?

O alastramento do COVID-19 está provocando mutações não apenas no vírus; nos discursos também. E nas reações. Transluz um cansaço geral, só interesses, nada parece ser o que parece ser. Vivemos um por enquanto interminável, espécie de sub-realidade, tudo à volta é surreal.


O Hospital Albert Einstein, em São Paulo, teria proibido seus médicos de receitarem os fármacos que estão no centro da grande discussão nacional, vidas humanas em jogo. Procurado e instado a pronunciar-se a respeito, o Hospital teria desmentido. Até porque, alude o blog, esse é o tipo de coisa que nenhum médico subscreveria. Receitar é questão a tangenciar o foro íntimo, é profissional, é técnico, além de tocar-lhe a seara constitucional; concordar ou não com o que lhe receita o médico orbita na esfera exclusiva do paciente. O médico pode solicitar a assinatura de um termo de concordância esclarecida, o cliente assina se quiser, sem ele o médico pode cessar o atendimento sem incorrer em qualquer falta ética ou legal.


Ainda tem gente apostando na ignorância que, os fatos indicam, já não é absoluta.


Outro exemplo: No início da crise viral, às primeiras manifestações do COVID-19 e na falta de medicamentos específicos, médicos começaram a receitar fármacos baratinhos, baratinhos, que, de uso original no tratamento de outros males, contiveram em certa medida a doença, evitando se estendesse a estágios mais graves, grandes laboratórios ao redor do mundo despejando recursos no desenvolvimento de vacinas. Curiosamente, e quase em paralelo, iniciou-se intenso bombardeio contra esses fármacos. O refrão adotado foi: “Não existe comprovação científica da eficiência desses medicamentos contra o COVID-19”.


Cacá Diegues fez há algum tempo uma observação que ficou gravada no titular do blog como lúcida regra a aplicar-se nesse nosso mundo deformado, coalhado de ‘gênios’. Fogem-lhe as palavras exatas utilizadas pelo Sr. Diegues, mas o que ele disse em essência foi: Qualquer manifestação, numa divergência, que não reconheça no outro a possibilidade mínima de que esteja certo é inútil, não presta para nada. Aparentemente, isso é intuitivo em algumas pessoas.


Um princípio impostergável, relativamente ao qual os advogados —e a gente lúcida—são extremamente sensíveis: Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, (…) (Constituição Federal, Artigo 93-IX). Se do Poder Judiciário, marco divisório entre a civilização e a barbárie, a Grande Dama exige a fundamentação das decisões, por que aceitar os ‘gênios’ em sua garrafas flutuando ao sabor sabe-se lá de quê, a se dispensarem de fornecê-la? Posições radicais negativistas foram assumidas apenas ao lacônico pretexto de padecimento de comprovação científica. Isso não é fundamentação, não se presta a embasar o que quer seja. Não é verdade. Não presta para nada. A Sociedade reagiu, saindo a campo. Existem, sim, aos borbotões, estudos e publicações científicas a darem conta da eficiência dos fármacos demonizados contra o COVID-19.


O que se lê a seguir não é prova ou fundamentação emprestada, que isso é vedado, nem para tanto o blog está autorizado; é referência presente no Artigo da semana passada: a mortalidade infra-hospitalar apresentada pela respectiva taxa de pacientes de COVID-19 em ambientes hospitalares é de 38%, ou 87.515 pacientes, no geral, 59%, ou 47.002, entre os pacientes admitidos na UTI, e 80%, ou 36.046, entre aqueles que foram ventilados mecanicamente. Dito isso, entre estudos e conclusões tantas toma-se por paradigma a meta-análise publicada da Universidade da Califórnia, EUA, um viveiro de Excelências Médico/Científicas, na forma da qual o uso precoce da hidroxicloriquina reduz em 25% a progressão do COVID-19 para formas mais graves, podendo-se inferir, grosso modo, que, se os pacientes hospitalizados tivessem sido precocemente tratados com HCQ, os números apresentados seriam menores na razão direta da redução da progressão da doença para formas mais graves, evitando sua chegada aos ambientes hospitalares, com redução da mortalidade em igual proporção, além de reduzir a sobrecarga na ocupação de leitos, o que evitaria as perdas de vida de pacientes enquanto à espera de vaga para internação.


Em dois casos concretos próximos do blog, devidamente registrados em sua informação, à percepção de sintomas do vírus as portadoras testaram positivo para o COVID-19, começando imediatamente o tratamento precoce com fármacos ditos ineficientes. Findo o prazo da quarentena, estavam novinhas em folha. Com quantas pessoas ocorreu o mesmo Brasil afora? E como se teriam passado as coisas se tivessem todos sido hospitalizados?


No começo da semana corrente tudo de lamentável ocorreu; caras-feias, agressões comportamentais veladas, manifestações implícitas de desaprovação, uma dicção discursória inflamada a soar falso em desapontador abono de inadmissível deselegância e carência ética. Faltou maturidade e senso de oportunidade, um péssimo exemplo, sem dúvida.


O titular do blog não dormiu aquela noite de joelhos sobre dois grãos de milho.


E, afinal, outra fala equivocada após sustentações insustentáveis: Manter o foco na vacinação. Não podia acontecer. Desinformação ou o quê? Quer-se deliberadamente e em grupo levar pessoas à morte pela negação daquilo que um sem-número de estudos e conclusões científicas recomenda? Por que tentar demolir os fármacos de tantas hospitalizações evitadas e possivelmente de tantas vidas humanas poupadas?


O Brasil é o 46° colocado em vacinações; pouco mais de 0,4% (quatro décimos por cento) da população recebeu a primeira dose da vacina, enquanto Israel beira os 22% (vinte e dois por cento) e a Arábia Saudita ultrapassou 19% (dezenove por cento). A eficiência no atendimento da população está no Oriente Médio. Por aqui apenas louvações e incapacidade, pose, formalismos e uma bobagem escrita em cada contêiner de vacina. Precisamos de menos shows midiáticos e mais eficiência. Não é favor, é obrigação.


Vamos continuar dependendo do exterior para produzir vacina contra o COVID-19, enquanto a Argentina está se preparando para produzir o “princípio ativo” e sem mendigar favores, como nós, com a dignidade de postura que temos sido incapazes de exibir. Estamos muitos meses longe de nos imunizarmos adequadamente, anos, talvez. E não é absurdo imaginar que jamais chegaremos lá.


É incomum um país com os recursos do Brasil ser incompetente como somos para dele cuidarmos e a nós próprios! A Organização Mundial da Saúde já alertou com propriedade, como tem feito em todas as suas manifestações e intervenções, sobre o descalabro moral da quase totalidade das vacinas contra o COVID-19 estar sendo direcionada para os países ricos, enquanto não conseguimos comprar vacinas ou produzi-las. Por acaso, geografica, territorial, populacional, aquífera, geológica e climaticamente, entre outros atributos, somos pobres? Não são poucas as nossas terras aráveis; por que temos milhões de pessoas passando fome, por que não podemos cuidar delas, da sua saúde, vaciná-las contra os efeitos de uma tragédia anunciada a respeito da qual nenhuma medida abrangente e efetiva foi tempestivamente tomada? Padecemos de um bla-bla-bla interminável que não produz nada além de resultados sofríveis que não levam a lugar nenhum; iludimo-nos, e gostamos disso. Vamos continuar com o tira-e-bota de presidentes sem planos de governo que destravem o país, vamos persistir no nosso muito riso e pouco siso, nossa especialidade, enquanto caminhamos para o abismo? Nesse campo de ideias e apenas para ilustrar: Se tivéssemos ficado sem os nossos aviões, pelos quais fizemos maciços investimentos, quem teria notado, noticiado ou reclamado nesse clima de ominosa e geral omissão?


Quem pede pelos fármacos não precisa ser advertido da necessidade de foco na vacinação; uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Quem assumiu a tarefa de produzir a vacina, talvez, sim, necessite concentrar-se em seu trabalho, apresentar resultados e propor soluções para o nó que nos foi criado ao colocar nas mãos do exterior a sorte e a vida da nossa gente. Quem não é capaz de prevenir um plano B para uma atividade essencial deveria declinar de exercê-la. As dificuldades, especialmente no cenário mundial que se nos depara, rondam todo e qualquer empreendimento. Administrar é um pouco mais do que protagonizar formalismos improdutivos e anacrônicos.


Estudos específicos apontam para o tratamento precoce e em casa do COVID-19 a partir de suas primeira manifestações e sintomas para evitar a hospitalização maciça, como tem ocorrido, com alto potencial de agravamento e letalidade. Quem pede pelos fármacos não os quer como tratamento regular, bem menos para substituir a vacina, apenas quer que morra menos gente do que tem morrido, e não ser hospitalizado é o primeiro passo. É para isso que servem os fármacos.


Não existe médico burro! Existem médicos que pensam fora da caixa, levam a sério o seu juramento e, mais importante que tudo, são independentes e descomprometidos.


Há que se ponderar à exaustão sobre a nossa incompetência e o tempo longo que levaríamos para erradicar o COVID-19 do país, caso tivéssemos competência para fazê-lo e insumos para produzir vacina, relativamente aos quais somos e continuaremos dependentes. Nem para decidir a medida da morte de brasileiros nessa pandemia temos competência. Isso será decidido no exterior.

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