PROJETO HOMEM. A QUESTÃO É: COMEÇAMOS ERRADOS

A espécie, cria dileta do Cosmo, deveria ser nobre e grandiosa; não é. Deveria ter-se corrigido de toda a selvageria de sua origem quando agraciada com a adaptação do córtex cerebral, artífice de sua humanização que envolve o hipotálamo, sede dos instintos, sem sujeitá-lo. Não logrou fazê-lo.Restou aos humanos, uma raça de criaturas dúplices, misto de réptil e de fera, curar-se de si mesma. Nem todas o querem. Estamos piores; a violência, de institucionalizada que foi, requintou-se nos meandros da atividade humana, está elaborada, sádica mesmo, a lei da selva aplicada de forma civilizada, embora os monumentos à estupidez sonhando o sonho dourado de um tacape para estourar as cabeças de quem deles discorda, com as próprias mãos, como fazia aquele senhor, cujo hábito do chá, adquirido dos seus antigos senhores, lhe aprazeria praticar nos pedaços de crânios estilhaçados pela sua força física, única forma de exercício de poder ao alcance de suas limitações intelectuais e humanas.


O blog extrai do artigo de domingo, 12 de junho de 2011:


(…) O processo que resultou no ser humano deveria coroar-se em seres únicos, categoria de semideuses planejada para a grandeza. Algo, todavia, deu errado; o peixe que se arrastou desajeitado para a porção sólida de um planeta distante na infância do Universo — a evolução ainda em seu estágio inicial —, não inau-guraria uma descendência apta a um desenvolvimento relativamente breve e saudável; ao invés, produziu seres escamosos, saltadores, efeitos do sangue frio, rastejantes, falhos de potencial evolutivo, presos aos pântanos, insuscetíveis de otimização, indistintos e imperfectíveis, propagados num amplo leque de excentricidades, criaturas sem sombra, tão rasteiras, uma perspectiva assustadora. Maculada, a ideia original imergiria na celeuma das espécies e com ela a raça semideia, até aí já longo o caminho percorrido.


O planeta constituíra-se um alentado banco de dados e um consistente conjunto de informações que permitiria a recombinação de instruções, ensejando adaptações, que, sopesadas, envolveriam riscos, mesmo para a prodigiosa inteligência reitora da evolução; elas se impuseram uma vez atingido o ponto de não retorno demarcado pela alternativa inviável de legar ao Universo um planeta de monstros e mostrengos incapazes de evoluir. Dessa encruzilhada evolutiva resultou um ser híbrido de naturezas opostas movido por criaturas antagônicas, uma delas, num cérebro novo, inteligente, outra, a besta do cérebro antigo, só instinto; os riscos ficariam por conta de provável insubmissão desta e na possibilidade efetiva de se tornar invasiva, gerando na criatura do cérebro novo condutas colidentes com a razão de sua constituição, tornando-a incontrolável por ser dotada de inteligência.


Incerto o desenvolvimento do projeto nessas condições, extinções em massa eliminaram no geral os exemplares imprestáveis e preservaram os de menor dispersão de características para se desenvolverem de modo alternativo. Desse processo resultaram produtos os mais diversos, a peçonha de cobras e lagartos e a obtusidade das tartarugas, o tronco estacionário dos grotescos e vetustos crocodilos e jacarés, os répteis aquáticos e voadores, o dinossauro ancestral, de poucas raças, que terão desenvolvido mecanismos de sangue quase quente, aves, os pássaros com seu canto mavioso e suas cores deslumbrantes, além do sinapsídeo, ascendente direto do ornitorrinco e chassis do primeiro animal de sangue quente, matriz do produto alternativo possível, pai de todos os mamíferos, do mono, ancestral em linha direta dos primatas, do homem, realização provisória, carente de aperfeiçoamento, uma espécie indistinta de santos e de monstros, de heróis e de poltrões, tal ou qual coisa, em seu íntimo todo um universo, todos os infernos, uma quantidade de paraísos, necessitando, para aperfeiçoar-se, de infinitamente mais verões e invernos do que uma simples existência lhes poderia proporcionar. Selvagens de origem, boa parte assim permaneceria mesmo quando, decorridos muitos milhões de anos, uma quantidade deles houvesse deixado ao longo de muitas existências bocados de sua selvageria e se tornado capaz de afeto, de chorar os seus mortos em comovidos preitos de saudade, e de, chegada a primavera evolutiva, acalentar sonhos e ideais, orar em canções eternais para não enlouquecer com a cantilena monocórdica dos arautos da rotina, não se enfeitiçar com o cantochão das manadas e não se deixar entontecer pelo incenso dos santarrões incapazes de descortinar um milímetro além de sua peculiar banalidade e desenredarem-se de sua crueza selvagem muitas vezes encoberta por esfarrapado manto de polidez ou santidade.

Não mais que um punhado em cada geração, uns poucos, resgataria a pureza maculada nos charcos pré-cambrianos onde materializada a vida a partir de protozoários, enquanto uma inumerável quantidade de toscos, brutos e lamentáveis celebrantes da mediocridade reduzidos a si mesmos permaneceria fera, réptil, ameba, no limiar, os estacionários da espécie.


Protozoário —Ramo do reino animal, de classificação suplantada, que reunia uma grande parcela dos seres unicelulares com organelas celulares envolvidas por membrana. Atualmente, este grupo consis-te em diversos ramos comuns a qualquer organismo unicelular.

Configurado a partir de criaturas privadas de atributos intelectivos, produto de fatores humanizantes combinados ao longo de um espinhoso processo, o ser inteligente emergiu hesitante de um complexo acumulador de neurônios destinado, sobretudo, a neutralizar o instinto e a controlar as emoções. Tal resultado não seria obtido pela generalidade da espécie; o cérebro antigo resistiria obstinadamente, lutaria para fazer prevalecer o limitado e rudimentar conjunto de programas por ele operado desde as mais antigas versões da vida substantivada. A besta jazeria no mais fundo da criatura inteligente, ébria do cheiro de sangue gravado na memória da espécie, descendo-lhe às narinas, estumando-a, estimulando-lhe o bocado selvagem.


Combinando fatores tardios, a evolução reprogramaria exemplares primitivos isolados, provendo-os de meios para evoluírem no sentido da criatura superior possível, capaz de interagir com os seus semelhantes e a eles associar-se na utilização útil do seu hábitat. E lograria, à medida do desenvolvimento de sua potencial habilidade, adaptá-la, melhorando-lhe a conformação das mãos e adequando a visão à vida operativa. Suas cordas vocais, rudimentares, seriam reordenadas para possibilitar a comunicação via sons articulados, habilitando-a à troca de experiências, à transmissão e partilha de conhecimentos para não desaparecer com ela o conhecimento adquirido, poupando os seus descendentes do esforço e do desperdício de reaprender a partir do zero o necessário para a sobrevivência, ou lhes valesse para escrever a própria história. Coroando a remodelação, foi-lhe acrescentado, sem vinculação com o limitado dispositivo original acelerador das forças biológicas e de controle orgânico, um mecanismo de funções típicas que lhe ensejaria, a par da evolução da forma, evoluir no sentido de especificidades que distinguiriam sua espécie das demais espécies do planeta, preparando-a para refletir sobre si mesma e afastar a animalidade da origem. Um complexo encefálico único seria estendido, a partir da região olfativa, por toda a área superior e anterior da caixa craniana, abarcando o dispositivo original, o cérebro antigo, subsistindo, no entanto, espécimes, trânsfugas da civilização inadaptados e destrutivos que “pensam” com o hipotálamo, verdadeiras frustrações das forças evolutivas, a conservar em sua configuração mental mais fera do que réptil, dissimulados sob roupagens civilizadas, mas traídos por um desprezo frequentemente manifestado de modo odiento, indisfarçável e irremissível aos seus semelhantes.


(Onair Nunes da Silva, Extrato, A Conspiração dos Medíocres)


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